Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, IX Mostra da Pós-Graduação

Tamanho da fonte: 
Commentarium in Apocalipsin (1047) do Beato de Liébana: um instrumento de poder e persuasão na Idade Média
CAROLINA AKIE OCHIAI SEIXAS LIMA

Última alteração: 24-09-17

Resumo


Esta pesquisa tem como objeto o Commentarium in Apocalipsin do Beato de Liébana, códice encomendado pelos reis Fernando I e D. Sancha, no ano de 1047, um documento cristão do século XI do qual levantamos a seguinte pergunta, por que este códice foi encomendado pelos reis cristãos? Que nos levou à hipótese, seria este um documento utilizado como instrumento político de poder e persuasão dos reis cristãos contra muçulmanos e judeus? Propomo-nos a realizar uma análise que trace as relações de poder mais efetivas entre a aristocracia, a monarquia, a Igreja e as chamadas minorias muçulmanas e judaicas presentes na Península Ibérica, no século XI. Realizamos um estudo historiográfico e a tradução das primeiras sessenta páginas do códice, do latim para o português. Para realização desta pesquisa, utilizamos os estudos do medievo que se relacionam com a história cultural, história das mentalidades, a cultura eclesiástica e a cultura folclórica na Idade Média.  Analisamos o conteúdo verbal e imagético, a constituição simbólica e narrativa presentes nas tábuas genealógicas e nas iluminuras que abrem o Commentarium in Apocalipsin (1047) para significar a nossa hipótese de que havia um interesse político-estratégico ligado ao jogo de poder e persuasão entre cristãos e não-cristãos, na encomenda da obra. Trabalhamos com questões que cercam o debate sobre feudalismo e sua conjuntura social, política e territorial na Península Ibérica do século XI. Indagamo-nos ainda a respeito de qual a relação entre os poderes cristãos e as minorias muçulmanas e judaicas? Se é que ainda podemos denominar ‘minorias’, mesmo depois de a historiografia nos ter dado notícias de um longo período de ocupação muçulmana e judaica naquela região. Traçamos os caminhos da historiografia que trata da indissociável relação entre cristãos, muçulmanos e judeus na Península Ibérica do século XI. O combate ao judaísmo na Península Ibérica tinha suas raízes fincadas já nos reinos visigodos, o que de fato apareceria no interior dos reinos católicos. A ocupação muçulmana na Península Ibérica perdurou por longos séculos, ou seja, de 711 quando findava um poderio visigodo para iniciar um novo poder islamo-árabe que mudaria toda a organização política e institucional ao longo de sua dominação, findando em 1492, quando os muçulmanos de Granada se renderam aos reis católicos. O século XI foi marcado por controvérsias e tensões em todas as estruturas, desde o reinado, à aristocracia até a Igreja. Os cristãos conquistaram a Espanha que antes era muçulmana, conhecida como Al-Andaluz. Ao mesmo tempo em que os muçulmanos perdiam terreno, iniciava-se uma nova etapa para a história da Península Ibérica. Portanto, de acordo com Wheatcroft “é um erro falar em convivência como uma entidade fixa e consolidada”, ou seja, “tratava-se de uma estrutura de concessão na qual havia um enorme desequilíbrio de poder entre a maioria e as minorias”. Por isso, defendo a ideia de que a encomenda do códice não seria mais que um simples documento de comemoração para os 10 anos de júbilo do reinado de Fernando I e D. Sancha, mas sim, um elemento persuasivo contra os não-cristãos.


Texto completo: XML