Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, XI Mostra da Pós-Graduação

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RASTROS POÉTICOS DE UM ANIMAL SENTIMENTAL: RECOMPONDO O PROJETO ESTÉTICO DE RENATO RUSSO
Luciano Carneiro Alves, Teresinha Rodrigues Prada Soares

Última alteração: 10-10-19

Resumo


Nas sociedades urbano-industriais, as relações entre indivíduos e arte assumem variantes que vão desde a expressão de sentimentos e ideais, conforme defendem os românticos, até mesmo o mero entretenimento evasivo como vendem alguns gurus do marketing contemporâneo. Em sua trajetória enquanto sujeito que buscou construir singularidades na constituição de sua subjetividade, o adolescente Renato Manfredini Junior acalentou o sonho de ser uma “estrela do rock”, criou a persona de Renato Russo aos 17 anos, alcançou o sucesso de público em nível nacional aos 25 anos e, até falecer aos 36 anos, almejou um projeto estético e poético por meio das composições que criou junto com a sua banda, a Legião Urbana. Este trabalho se propõe a ser mais uma contribuição ao conjunto interpretativo que tem sido empreendido por diversas pesquisas em vários âmbitos das Ciências Humanas, no sentido de melhor compreender e esquadrinhar os personagens, motivações e significados de atuação na cultura jovem urbana no Brasil. A ênfase aqui é na música pop-rock, nos versos e performances que consagraram Renato Russo. A partir da análise das canções dos dez discos lançados entre 1985 e 1996 (oito com a Legião Urbana e dois solo), nos propomos a delinear os elementos da poética deste artista. O destaque entre os personagens dos anos 1980 e 1990 ocorreu na medida em que suas canções foram reconhecidas como representações dos impasses e visões dos jovens destas décadas. Em sua trajetória artística (desde as primeiras composições na década de 1970, até sua morte em 1996), Renato Russo mobilizou um conjunto variado de referências ligadas à utopia moderna de emancipação por meio da arte. Pensar a cultura brasileira dos últimos 40 anos é uma tarefa que requer de nosso olhar uma atenção especial ao desenrolar de alguns processos e sujeitos. Pensando a arte na perspectiva proposta por Luigi Pareyson e Umberto Eco no âmbito da Escola Estética de Turim, vemos as canções da banda Legião Urbana como expressão artística que proporcionaram experiências estéticas e poéticas no duplo processo de conhecer e construir o mundo e a sensibilidade humana neste período. E as letras de Renato Russo como formas de intervenção artístico-poéticas na construção dos sentidos de três processos mais explicitamente: a rápida e intensa urbanização decorrente do projeto modernizador; a consolidação da rede de comunicações que favoreceu a produção de uma cultura massificada com influência norte-americana; a ressignificação da juventude como grupo social e referência cultural. No sarcasmo de metáforas presentes em “Geração Coca-Cola” ou “Perfeição”; nas análises críticas de “Musica Urbana 2”, “Que País é Este?”, “Teatro dos Vampiros”; ou nas narrativas de cotidianos presentes em “Eduardo e Mônica”, “O Mundo Anda Tão Complicado”, “O Descobrimento do Brasil” e “Leila”; enfim, no conjunto das composições que Renato Russo criou ou cantou, são perceptíveis os elementos de uma poética moderna: um programa de arte impregnado dos sentidos do seu tempo em que, por meio do gesto inacabado da criação artística, versos, sons e atitudes propuseram um modo de ver e interpretar o processo de modernização no Brasil.

Palavras-chave


Cultura Jovem; Renato Russo; Poética