Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, XI Mostra da Pós-Graduação

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Memórias de infância, relações de gênero, educação e violência doméstica: entre vidas e linhas de outras Marias
Tati Coelho Antunes

Última alteração: 19-09-19

Resumo


Numa perspectiva histórica, deparamo-nos com o fato de, desde a tenra idade, várias instituições, como a família, a escola, a mídia, e os diferentes artefatos culturais participarem da produção das relações e experiências de gênero das crianças.  Os discursos que dão materialidade a esses dispositivos tendem a convergir no sentido de preservar um ideal conservador de sociedade, dentro de uma perspectiva normativa, regulatória e compulsória. A presente pesquisa tem como objetivo analisar os sentidos sobre as relações de gênero, na família e na escola, que mulheres em situação de Medidas de Proteção da Lei Maria da Penha produzem em suas memórias de infância e como estes reverberam nos modos como elas significam as experiências de violência vividas no presente. As narrativas são analisadas a partir dos seguintes eixos: a infância; a relação com a escola; a relação com a família; as relações de gênero; a violência e a Lei Maria da Penha; e a ressignificação das memórias no presente. As participantes da pesquisa são cinco mulheres, com idades entre 30 e 50 anos, detentoras de Medidas de Proteção junto à Lei Maria da Penha, na Vara Única do Fórum da Comarca do município de Pedra Preta, Mato Grosso, durante o ano de 2017. Como referencial teórico-metodológico, a pesquisa conta com os aportes de: Judith Butler e Guacira Louro, para as análises das relações de gênero; Walter Benjamin e Jeanne Marie Gagnebin, para a compreensão da memória como experiência; e Michel Foucault, para a análise dos discursos produzidos nas memórias de infância. Nas análises, nota-se que as participantes da pesquisa possuem experiências com o masculino marcadas pela dor, opressão e pela violação de seus corpos desde a infância. A família e a escola aparecem nas narrativas como instituições disciplinares, atravessadas por normas de gênero, imersas em um regime de verdade que visa legitimar uma “criança ideal-típica” e inteligível dentro do sistema heteronormativo. Aliadas a esta questão estão as relações de poder nas interações familiares ao instituírem a criança como propriedade dos adultos. A violência doméstica aparece intimamente relacionada à constituição de gênero, com base em princípios de uma educação a partir do que se convencionou ser ideal para homens e mulheres. O discurso religioso, nessas narrativas de infância, tem como efeito manter as mulheres subservientes ao imprimir o verbo suportar em seus comportamentos e justificar a violência por vias essencialistas. Verifica-se, ademais, que o comportamento do agressor dentro do ciclo de violência doméstica é reiterativo, assumindo um caráter performativo produtor da naturalização dessa violência. Espera-se que a presente pesquisa contribua para a análise de novas formas de ser e de viver as relações sociais ao lançar mão das resistências às normatividades por meio da potencialidade dos discursos e dos atos. Assim, é possível pôr em xeque o patriarcado, com vistas a construir uma educação mais emancipadora, no que tange às relações de gênero.

 


Palavras-chave


Infância; Gênero; Educação; Violência Doméstica.