Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, XI Mostra da Pós-Graduação

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Nos diferentes ritmos temporais do rio Araguaia e suas margens: espaço e agentes históricos categorizados como representantes do passado e do futuro em Luciara, Mato Grosso
Juliana Cristina da Rosa

Última alteração: 07-10-19

Resumo


Essa pesquisa tem como objetivo analisar como as águas e as margens do rio Araguaia foram sendo percorridas e suas terras foram sendo apropriadas ao longo dos séculos em que se formou o Brasil. Porém, não se trata de construir uma narrativa sobre esse processo por meio de sua dinâmica, mas analisando o “como” ocorreu por meio de narrativas e discursos produzidos por aqueles que avançavam sobre esses espaços. O foco da análise é o município mato-grossense de Luciara que possui uma história de ocupação específica que resultou numa série de conflitos fundiários e socioambientais justamente por ser o local do encontro de diferentes agentes históricos: indígenas; sertanejos; agricultores; empresários; cada qual com suas narrativas sobre o lugar do “outro”.

A hipótese analisada foi de que tais narrativas estão permeadas de elementos que consideram aquele espaço como pertencente ao passado, por ser o lugar do “atraso” em relação à “civilização” citadina e europeia, e povoado por habitantes igualmente pertencentes ao passado, por serem “primitivos”, “selvagens”, “bárbaros” e/ ou “cruéis”. Ao longo desses quatro séculos, as categorias e denominações mudaram, mas carregam consigo a oposição entre o passado e o futuro, sendo este último resultado da ação humana “civilizatória” em direção ao “progresso”, “desenvolvimento” ou ainda, rumo à uma “sustentabilidade”.

Nesse sentido, no “passado” foram situados os povos indígenas que habitavam as margens do rio Araguaia, de modo que mesmo os “sertanejos” que viviam longe da “civilização” usavam categorias que os inseriam nessa perspectiva, ainda que, mais tarde, fossem eles os agentes históricos considerados como representantes desse passado e do atraso. Trata-se de uma dinâmica que, conforme pode ser observado nas fontes documentais, desloca agentes históricos como representantes do passado conforme  grupo que escreve as narrativas: desde bandeirantes sobre povos indígenas descritos como “bárbaros”; passando por “fazendeiros” que rotularam “sertanejos” com o estigma do atraso; até jornalistas engajados que consideram os “fazendeiros” como típicos exemplos do que há de mais arcaico e novas categorias identitárias como os retireiros do Araguaia como os legítimos protagonistas de um “futuro sustentável”.

Trata-se de uma pesquisa construída a partir dessa problemática, sendo necessário trazer reflexões teóricas e metodológicas sobre cada tipologia documental, como a discussão sobre mapas serem instrumentos de e do poder, bem como sobre narrativas de viagem e o lugar de fala de cada narrador. Do mesmo modo, foi inserido um debate sobre narrativas produzidas por uma história oficial e/ou memorialista, com problematizações sobre memória e oralidade apresentados, e por fim, de como um acontecimento pontual dentro de um processo mais amplo pode ser alvo de conflitos de narrativas jornalísticas e escritos de militantes.


Palavras-chave


Araguaia; Luciara; Sertanejos; Retireiros; Conflitos.