Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, XI Mostra da Pós-Graduação

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A sacralização em disputa: Miguel Servet (1511-1533) na época das Reformas
Daniel Seba

Última alteração: 07-10-19

Resumo


A presente comunicação visa analisar a proposta religiosa de Miguel Servet (1511-1553), teólogo, médico, humanista e editor aragonês, cuja preocupação com alguns temas cristãos no período das Reformas, especialmente aqueles acerca da Trindade e batismo infantil, tocaram em pontos sensíveis da ortodoxia de então, promovida tanto em âmbito católico quanto protestante. Já sua primeira obra, datada de 1531, escrita aos 20 anos de idade, por um sujeito jovem, vindo da Espanha, sem formação em teologia, desencadeou reações que se mostraram assustadas e temerosas com tudo aquilo contido naquela obra intitulada De Trinitatis erroribus libri septem, também conhecida pelo nome simplificado “Dos erros da Trindade”. Em que pese as profundas diferenças suscitadas entre Phillipe Melanchton (1497-1560), amigo íntimo de Martinho Lutero (1483-1546) e profundo colaborador da Reforma Protestante, e Girolamo Aleandro (1480-1542), núncio papal da Corte imperial de Carlos V, ambos definiram, enfaticamente, Miguel Servet enquanto convicto herege, profanador da divindade de Cristo, herdeiro de heresias combatidas ainda no início do cristianismo. Em suma, apontavam-no como alguém inclusive próximo do islamismo e judaísmo, já que Servet não compartilhava da ideia amplamente aceita pela ortodoxia cristã, segundo a qual Jesus, ao dispor de uma dupla natureza, tanto humana quanto divina, é coeterno ao Deus Pai. Outro tema caro ao médico espanhol, foi a supracitada questão do batismo, na qual novamente se colocou em posição dissonante. Ao argumentar contra o batismo infantil, aponta, ou julgar encontram em passagens bíblicas as condições necessárias ao sacramento: penitência e fé. Atributos, portanto, desconhecidos das crianças. Ao atacar dogmas profundamente consolidados, Servet precisava amparar-se em fontes que permitissem o embasamento de sua posição, mas que igualmente necessitavam envoltar-se por uma aura sagrada, a qual pudesse ser inteligível a seus interlocutores. Com efeito, o problema que tentamos responder gira em torno da questão de qual procedimento empregou Servet na tentativa de conferir sacralidade as suas referências. Primordialmente o teólogo aragonês parte do pressuposto lógico de que quanto mais próximo da vida de Jesus é o testemunho, maior sua credibilidade. Consequentemente, o Novo Testamento ocupa posição privilegiada na hierarquia de suas fontes. Obedecendo ao mesmo imperativo, alguns autores do denominado cristianismo primitivo, a exemplo de Tertuliano (155-220) e Irineu de Lyon (ca. 130-202), ao conservarem, na ótica servetiana, a ideia correta de Trindade, arvoram-se em importantes fontes. O filtro imposto por este teólogo, no momento em que a opera “triagem” dos relatos, segundo acreditamos, consiste em seu exacerbado zelo hermenêutico que se expressa no máximo respeito pela interpretação literal das Escrituras. Tudo aquilo que não condiz com o que julga encontrar na Bíblia, significa “profanação” da clara palavra de Deus, são meras interpolações tardias, resultado tanto da pagã filosofia grega, especialmente aristotélica, quanto de fontes exógenas ao cristianismo. As apreciações atinentes a construção do sagrado, requisitam a utilização metodológica da análise do discurso, a qual possibilitará precisar as palavras, termos e, de forma geral, a retórica contida na obra servetiana.

Palavras-chave


Miguel Servet. Sagrado. Reformas religiosas