Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, XI Mostra da Pós-Graduação

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O cinema invisível: cartografias do acontecimento cinematográfico
Thiago Cardassi Sanches, Maria Thereza de Oliveira Azevedo

Última alteração: 14-10-19

Resumo


O cinema, mais do que um meio, suporte, produto ou obra, é uma processualidade da ordem dos acontecimentos que conjuga na experiência do observador elementos heterogêneos e semióticas de caráter misto (DELEUZE; GUATTARI). Por esta razão, seu estudo demanda procedimentos que sejam capazes de mapear não apenas narrativas e representações (semióticas significantes), mas também afetos, intensidades, velocidades, intervalos e temporalidades (semióticas a-significantes) (LAZZARATO). Sem negar a importância das camadas de significação, este estudo aborda o cinema a partir da lógica do acontecimento (DELEUZE) para afirmar o campo das virtualidades que habitam as matérias de expressão e conteúdo dos filmes. Quanto maior nosso coeficiente de desterritorialização, maiores as chances de apreendê-las, uma vez que este determina um permanente esforço de abertura corporal diante dos afetos que pedem passagem (ROLNIK). Este corpo não vem pronto, é necessário reinventá-lo constantemente para que seja possível captar aquilo que em um filme insiste para além dos regimes do enunciável e do visível (a parte que se apresenta a consciência que observa), e participar dele junto das forças invisíveis (FOUCAULT) que animam o plano de composição cinematográfico. Este conjunto de forças designa uma multiplicidade de quase-seres absolutamente reais que se encontram dispersos em estado de potências não-formadas e a-centradas que atravessam a subjetividade do experimentador (LAPOUJADE). Neste sentido, eu não tenho uma perspectiva sobre o filme, pelo contrário, é o filme que me faz entrar em uma de suas muitas perspectivas de acordo com a maneira que me afeta, ou seja, segundo o tipo de potência que suscita em meu corpo (ESPINOSA). O problema mobilizador desta pesquisa é, precisamente, como fazer ver o invisível (KLEE) e ouvir o inaudito que insiste na duração (BERGSON) do acontecimento cinematográfico? Na medida em que fazer ver é também fazer existir, qual procedimento poderíamos utilizar para tornar mais real as virtualidades que nos atravessam (SOURIAU)? Quem testemunha algo tem potencialmente a capacidade, mas também a responsabilidade de fazer ver aquilo que teve privilégio de ver, sentir ou pensar. É neste ponto em que o observador se torna um criador, pois ele só pode fazer isso recomeçando a criação, atualizando estas forças de acordo com seu próprio modo de existência (ULPIANO). Uma vez que o processo de experimentação cartográfica (ROLNIK; KASTRUP) constitui uma disposição aberta e não-intencional para o mapeamento dos afetos em trânsito (DELIGNY), proponho deslocar seus usos tradicionais no campo psicossocial para se repensar a dimensão das forças intensivas que percorrem a arte da imagem-movimento, fazendo a cartografia subir a outros planos de realização. Neste percurso, no lugar da interpretação, enfatizamos a experimentação criadora por meio do traçado de mapas sensíveis do movimento e das potências que habitam o acontecimento cinematográfico.

Palavras-chave


Cartografias do Cinema, Produção de subjetividades, Semiótica do Acontecimento