Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, XI Mostra da Pós-Graduação

Tamanho da fonte: 
Esporotricose linfocutânea com acometimento pulmonar após arranhadura de tatu em homem imunocompetente: relato de caso
Andreia Ferreira Nery, Rosane Christine Hahn

Última alteração: 09-10-19

Resumo


Objetivo: Relatar caso de esporotricose com transmissão e evolução clínica atípicas: trauma por animal silvestre em homem imunocompetente e concomitância de manifestações linfocutâneas e pulmonares. Relato de caso:O.S.C., homem, 51 anos, procedente de Nobres, MT, Brasil, vigilante, tabagista, não- alcoólatra, relatou que há 3 meses, sofreu arranhadura por tatu na região distal do segundo quirodáctilo direito. Lesão decorrente do trauma evoluiu com formação de placa eritematosa hiperceratótica. Um mês após, notou o aparecimento de outras lesões eritematosas, tipo pápulas e nódulos, infiltrativas, algumas com crostas superficiais de diâmetros variáveis (1 a 2,5 cms), que ascendiam para todo o dorso da mão, antebraço e braço direito. Apresentou quadro febril frustro e tosse seca. Fez uso de fluconazol, ivermectina e cefalexina, sem qualquer melhora. Encaminhado ao serviço de dermatologia, realizou sorologias (hepatites virais, sífilis e HIV) todas não reagentes. Tomografia computadorizada (CT) de tórax mostrou consolidações esparsas e reticulonodulares em terço superior direito. Ausência de outras comorbidades. Hemograma e exames bioquímicos de rotina sem alterações. Fragmento de pele foi obtido para elucidação microbiológica. Biópsia mostrou infiltrado inflamatório de permeio, com linfócitos e plasmócitos e esparsos histiócitos. Cultura e identificação moleculardo fragmento de pele identificaramSporothrix schenckii sensu stricto.Cultura para micobactérias foi negativa. Está em tratamento com itraconazol 200 mg/dia há dois meses, com melhora clínica. Discussão:esporotricoseé adquirida através de pequeno trauma ocasionado por espinhos de plantas ou arranhaduras de mamíferos, que inoculam diretamente os fungos na região subcutânea. A transmissão zoonótica da esporotricose foi descrita em humanos e outros mamíferos, como gato, cachorro e mais raramente, o tatu. No Brasil, os principais surtos de esporotricose zoonótica foram descritos envolvendo seres humanos e um pequeno grupo de gatos domésticos. Pouco se sabe sobre a transmissão do fungo em atividades relacionadas à caça ao tatu. Não foi encontrado outro relato de caso evidenciando envolvimentos linfocutâneo e pulmonar concomitantes, relacionado à arranhadura por tatu. Comumente cursa como doença benigna, subaguda ou crônica e limitada à pele e ao tecido celular subcutâneo e  raramente, pode disseminar-se. A forma extracutânea corresponde a menos de 1% dos casos, sendo o acometimento pulmonar raro, subnotificado e pouco investigado. Apesar dessa forma ser mais comum em homens com infecção pelo HIV, diabetes mellitus ou alcoólatras, no caso em questão todas essas condições foram descartadas. O paciente apresentou forma focal pulmonar, que pode corresponder a 90% dos casos e com sintomatologia inespecífica: tosse e febre. CT de tórax mostrou infiltrados reticulonodulares em terço superior direito, o que corresponde a mais 74% dos casos. Casos leves a moderados podem ser tratados com itraconazol em dose diária de 100-400mg por no mínimo, doze meses, com boa resposta clínica. Conclusão:A ocorrência concomitante de lesões linfocutâneas e pulmonares da esporotricose, em paciente imunocompetente, chama a atenção para a necessidade de investigação de manifestações extracutâneas dessa micose no Brasil, como parte da rotina clínica-investigativa. Salienta-se ainda que a caça a tatus é atividade comum, o que enaltece a importância dessa forma de transmissão da doença.


Palavras-chave


esporotricose linfocutânea, esporotricose pulmonar, tatu,