Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

Tamanho da fonte: 
VISOGRAFIA: O PROBLEMA DO CONTEUDO, MATERIAL E FORMA NA ESCRITA DE SINAIS
Claudio Alves Benassi, Simone de Jesus Padilha

Última alteração: 17-10-18

Resumo


A escrita de sinais não é uma unanimidade entre os profissionais da área da língua de sinais. Sua importância para o desenvolvimento cognitivo do sujeito visual (surdo) é ainda ignorada, sendo que muitos sequer a admitem como possibilidade de registro eficaz. A VisoGrafia surge nesse cenário de descrédito como uma resposta a uma necessitância da sala de aula e do ensino de escrita de sinais no curso de Letras-Libras, no qual atuo como professor. Na minha prática de ensino-aprendizagem, percebi que o sistema de escrita de sinais mais conhecido, o Sign Writing (SW), é inviável para o ensino por conter 982 caracteres; o sistema por mim utilizado, a Escrita das Línguas de Sinais (ELiS), é rejeitado por ser muito abstrato: diante disso, surge a VisoGrafia como o objeto da presente pesquisa, cujo principal objetivo é a criação de um sistema de escrita de sinais visual, de fácil memorização/mobilização no processo de grafia e de leitura e com baixo número de grafemas. O sistema foi desenvolvido em três fases: seleção de caracteres; estruturação e sistematização; e aplicação no processo de ensino-aprendizagem. Após a última fase, o sistema passou por duas etapas de melhorias que aprimorou o sistema e o processo de grafia, tornando-o mais visual. Atualmente, o sistema que nasceu com 46 visografemas conta com apenas 37, sendo, portanto, o sistema de grafia com menor número de visografemas que circula no Brasil. Tendo como principais bases teóricas os pensamentos linguísticos de Saussure, no que tange à noção de sistema e de Bakhtin no que diz respeito à dialogia, o problema identificado foi analisado, processo que indicou a necessidade de orientar a criação da VisoGrafia pelos pressupostos de dupla articulação da linguagem, propostos por Martinet. Assim, descrevi minuciosamente a língua de sinais na primeira articulação (nível morfêmico) e na segunda articulação (nível paremolôgico). Tal aplicação exigiu uma nova concepção de língua(gem), bem como uma nova concepção linguística estrutural da língua de sinais representada pela sequência: enunciado; sinalema – sinalico mórfico, sinalico distintivo; paragêneo (parâmetro); parema; feixe visual. Assim sendo foi possível compreender e aplicar o princípio da dupla articulação da linguagem humana na língua de sinais. Dentre os experimentos realizados, executei a grafia de três textos, sendo eles: uma agenda, um bilhete e um poema. Esses provam a viabilidade da grafia da língua de sinais por meio da VisoGrafia, independente do gênero escrito. A viabilidade da leitura também foi experimentada por meio da leitura do resumo de um artigo científico escrito em VisoGrafia, realizado por duas acadêmicas de Letras-Libras. Por último, vale ressaltar que a VisoGrafia foi aplicada no processo de ensino-aprendizagem em curso de extensão e em disciplinas de escrita de sinais em cursos de Letras-Libras. Os estudantes escreveram e leram sinalemas com duas aulas apenas, sendo que em oito escreveram textos: dados que mostram que a VisoGrafia é um sistema de fácil aprendizagem.


Palavras-chave


VisoGrafia; Escrita de sinais; Estudos Bakhtinianos; Conteúdo; Material; Forma.

Referências


BAKHTIN, M. M. [1920] Para um filosofia do ato responsável. [Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello & Calos Alberto Faraco]. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010. 155 p.

______. Formas de tempo e de cronotopo no romance (Ensaios de poética histórica). In.: ______. [1975] Questões de literatura e de estética (A teoria do romance). São Paulo: Hucitec Editora, 2010.

______. O discurso no romance. In.: ______. [1975] Questões de literatura e de estética (A teoria do romance). São Paulo: Hucitec Editora, 2010.

______. O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária. In.: ______. [1975] Questões de literatura e de estética (A teoria do romance). São Paulo: Hucitec Editora, 2010.

______. Problemas da poética de Dostoievski. Tradução direta do russo, notas e prefácio de Paulo Bezerra. – 5ª ed. – Rio de Janeiro : Forense Universitária, 2015.

______. O autor e a personagem na atividade estética. In.: ______. [1979] Estética da criação verbal. Prefácio à edição francesa Tzvetan Todorov; introdução e tradução do russo Paulo Bezerra. – 6ª ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

______. O romance de educação e sua importância na historia do realismo. In.: ______. [1979] Estética da criação verbal. Prefácio à edição francesa Tzvetan Todorov; introdução e tradução do russo Paulo Bezerra. – 6ª ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

______. Os gêneros do discurso. In.: ______. [1979] Estética da criação verbal. Prefácio à edição francesa Tzvetan Todorov; introdução e tradução do russo Paulo Bezerra. – 6ª ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

______. O problema do texto na linguística, na filologia e em outras ciências humanas. In.: ______. [1979] Estética da criação verbal. Prefácio à edição francesa Tzvetan Todorov; introdução e tradução do russo Paulo Bezerra. – 6ª ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

______. Palavra própria e palavra outra na sintaxe da enunciação. In.: VOLOCHINÓV, V. N.; BAKTIHN, M. M. Palavra própria e palavra outra na sintaxe da enunciação. São Carlos : Pedro & João Editores, 2011. 184 p.

BARROS, M. E. Scripsig – Escrita quirográfica das línguas de sinais. Fragmentos, n. 30, p. 155/167. Florianópolis, jan.-jun., 2006.

______. A Libras por escrito. In.: Estudos, Goiânia, v. 33, n. 5/6, p. 385-396, mai.-jun., 2006. Disponível em  http://revistas.ucg.br/index.php/estudos/article/viewFile/293/237. Acesso em 19 de nov. 2016

______. ELiS – Escrita das Línguas de Sinais: proposta teórica e verificação prática. Tese. Doutorado. Programa de Pós-graduação em Linguística. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2008.

______. ELiS: sistema brasileiro de escrita das línguas de sinais. Porto Alegre: Penso, 2015.

BENASSI, C. A. O despertar para o outro: entre as escritas de língua de sinais. Rio de Janeiro: Autografia, 2017

______. VisoGrafia. Site. Disponível em http://www.visgorafia.com/historia/. Acesso em 11 de jan. 2018.

______. Escrita de sinais VisoGrafia: sistema de escrita das línguas de sinais. In.: Diálogos (RevDia), v. 6, n. 1. jan.-abr., 2018. Disponível em http://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/revdia/article/view/6313. Acesso em 30 de mai. 2018.

______.; DUARTE, A. S.; PADILHA, S. de J.  Proposta de releitura do SignWriting e da ELiS. In.: Revista Falange Miúda. v. 1, n. 1, 2016. Disponível em https://www.falangemiuda.com.br/index.php/refami/article/view/11. Acesso em 20 de set. 2016.

CÂMARA JÚNIOR, J. M. O estruturalismo. In.: Alfa – Revista de linguística, v. 11, 1967. Disponível em https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/3298/3025. Acessado em 20 de set. 2016.

______. [1970] Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes, 2015.

CAMPELLO, A. R. e S. Língua Brasileira de Sinais. Indaial: UNIASSELVI, 2011.

COUTO, H. H. Do. Linguística ecossistêmica. In.: Ecolinguística: Revista Brasileira de Ecologia e Linguagem, v. 01, n. 01, p. 47-81, 2015. Disponível em Disponível: http://periodicos.unb.br/index.php/erbel/article/viewFile/15135/10836.  Acessado em 13 de ago. 2018.

______. Ecolinguística: estudo das relações entre línguas e meio ambiente. Brasília: Thesaurus, 2007. 462 p.

FERREIRA, L. Por uma gramática da língua de sinais. – [reimp.] Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2010. 273 p.; il.

FRIEDRICH, J. Lev Vigotski: mediação, aprendizagem e desenvolvimento: uma leitura  filosófica e epistemológica. TraduçãoAnna Rachel Machado e Eliane Gouvêia Lousada. – Campinas, SP: Mercado das Letras, 2012.

HIGOUNET, C. História concisa da escrita. [Tradução da 10ª edição corrigida]. Marcos Marcionilo – São Paulo : Parabola Editorial, 2003. – (Na ponta da língua; 5).

LÉVI-STRAUSS, C. [1958] Anthropologie structurale. Paris: Plon. 1985.

MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. Texto da Conferência pronunciada na 50ª Reunião do GEL – Grupo de Estudos Lingüísticos do Estado de São Paulo, USP, São Paulo, 23-25 de maio de 2002. Disponível em http://www.tabuleirodigital.com.br/twiki422/pub/GEC/RefID/marcuschi-_generos_textuais_emergentes_no_.....doc. Acesso em 25 de abr. 2018.

MARTINET, A. [1968] A linguística sincrônica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1971.

______. [1975] Elementos de linguística geral. Lisboa: Clássica Editora, 2014.

SAUSURRE, F. de. [1970] Curso de linguística geral. Charles Bally e Albert Sechehaye; com colaboração de Albert Riedlinger; prefácio à edição brasileira de: Isaac Nicolau Salum; [tradução de Antônio Chelini, José Paulo Paes, Izidoro Blikstein]. – 28. ed. – São Paulo: Cultrix, 2012.

______. [2002] Escritos de linguística geral. Tradução de Carlos Augusto Leuba Salum e Ana Lúcia Franco. São Paulo, 2004.

SÉRRIOT, P. Volochinov e a filosofia da linguagem. Tradução de Marcos Bagno.  – 1. ed. – São Paulo: Parábola Editorial, 2015.

STUMPF, M. R. Aprendizagem de escrita da língua de sinais pelo sistema SignWritting: línguas de sinais no papel e no computador. Tese. Doutorado. Programa de Pós-graduação em Informática na Educação. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2005.

______. Escrita de Língua Brasileira de Sinais. Indaial: UNIASSELVI, 2011.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos superiores. Orgs. Michael Cole... [et al.] ; tradução de José Cipolla Neto, Luís Silveira Menna Barreto, Solange Castro Afeche. – 7ª ed. – São Paulo : Martins Fontes, 2007. – (Psicologia e pedagogia).

______. Pensamento e linguagem. Tradução de Jefferson Luiz Camargo ; revisão técnica José Cipolla Nelo. – 4ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2008. – (Psicologia e pedagogia).

VOLÓCHINOV, V. Que é a linguagem? In.: A construção da enunciação e outros ensaios. São Carlos : Pedro & João Editores, 2013. 273 p.

______. A construção da enunciação. In.: A construção da enunciação e outros ensaios. São Carlos : Pedro & João Editores, 2013. 273 p.

______. Sobre as fronteiras entre poética e linguística. In.: A construção da enunciação e outros ensaios. São Carlos : Pedro & João Editores, 2013. 273 p.

______. Algumas ideias-guia para a obra Marxismo e filosofia da linguagem. In.: A construção da enunciação e outros ensaios. São Carlos : Pedro & João Editores, 2013. 273 p.

______. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekatarina Vólkova Américo; ensaio introdutório de Sheila Grillo – São Paulo: Editora 34, 2017 (1ª Edição). 376 p.

______. BAKHTIN, M. M. A palavra na vida e na poesia: introdução ao problema da poética sociológica. In.: VOLOCHINÓV, V. N.; BAKTIHN, M. M. Palavra própria e palavra outra na sintaxe da enunciação. São Carlos : Pedro & João Editores, 2011. 184 p.

WANDERLEY, D. C. A leitura e escrita de sinais de forma processual e lúdica. – 1. ed. – Curitiba: Editora Prismas, 2015. 215 p.