Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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Estratégias de autorrepresentação no romance de Enrique Vila-Matas
Rosana Arruda de Souza

Última alteração: 17-10-18

Resumo


Neste trabalho, pretendo investigar as estratégias de autorrepresentação no romance O mal de Montano (2002), do escritor espanhol Enrique Vila-Matas. Parto do pressuposto de que tais estratégias seriam aquelas mobilizadas no processo de escrita para driblar o pacto autobiográfico. Assim, movimentar as diversas máscaras utilizadas pelo narrador se torna muito mais atrativo do que o estabelecimento da identidade entre ele e o autor. Basicamente, o romance traz a história do narrador-protagonista Rosário Girondo que fala de uma doença da literatura, chamada de o mal de Montano. Entre os sintomas da doença estariam: a incapacidade de escrita – a pessoa se torna ágrafa; o achar-se duplo – a pessoa acha que tudo que pensa e escreve já foi pensado e escrito por outros escritores; a mania de fazer citações, caso de Rosário, de maneira que tudo o remete a trechos e personagens da literatura. Além disso, o protagonista procede através de uma escrita meta-ficcional. Ou seja, deixa à mostra a maneira com que constrói a narrativa, confessando, por exemplo: que Rosário não é seu verdadeiro nome, e chegamos ao fim da leitura sem descobrirmos o mistério; que nasceu em Barcelona no ano de 1948, local e ano coincidentes com os do autor, Enrique Vila-Matas;  revelando que certos personagens da história não existem, são invenção sua, inclusive o filho Montano, justamente quem inspira o nome da doença; por fim, que também é um escritor e o livro de sua autoria leva o mesmo título daquele inscrito na capa, ou seja, “o mal de Montano”. Diante disso, embora não possamos estabelecer o pacto autobiográfico, pois este requer a identidade dos nomes do autor e narrador, temos o que poderíamos chamar de pacto fantasmático que se constrói através da enunciação de “fantasmas reveladores do indivíduo” (LEJEUNE, 1975), e Rosário seria uma máscara utilizada pelo narrador, não se identificando com o autor, mas se confundindo com ele. Assim, nosso aporte teórico vai do pacto autobiográfico à autoficção, conceito mobilizado por Doubrovsky (1977) para dar inteligibilidade aos casos em que o pacto autobiográfico por si só não conseguiu sustentar. Atualmente, a autoficção estaria sendo utilizada como ferramenta de leitura para essas narrativas em que o autor se tornou espécie de instituição – não é nem o sujeito de carne e osso, nem o sujeito ficcional, mas alguém perseguido pelo leitor e necessário para ser o responsável pela escrita. Diante disso, nossa pergunta de pesquisa é: Como a autoficção dribla o pacto autobiográfico, sendo a estratégia utilizada para a autorrepresentação do eu no romance de Enrique Vila-Matas?