Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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Da longa duração para o tempo presente do Araguaia: A dimensão temporal presente nas narrativas e discursos durante a ocupação das margens do rio Araguaia e no conflito socioambiental em Luciara, Mato Grosso.
Juliana Cristina da Rosa

Última alteração: 22-11-18

Resumo


A pesquisa em desenvolvimento tem como objetivo principal analisar a dimensão temporal presente nas narrativas sobre pagãos e cristãos, selvagens e civilizados, atraso e progresso na ocupação das margens do rio Araguaia envolvendo a oposição entre passado e futuro, bem como a compreensão dos diferentes ritmos temporais vivenciados em diferentes temporalidades por diversos agentes históricos a partir do referencial teórico de Koselleck (2006). A perspectiva de longa duração, conforme Braudel (1978) foi adotada nos três primeiros capítulos que abordam a história do rio Araguaia, suas primeiras ocupações por povos que mais tarde seriam categorizados como indígenas, “pagãos”, “bárbaros”, “gentios” e “selvagens” por parte de bandeirantes, colonizadores e viajantes ao longo dos primeiros séculos de colonização portuguesa. Através da análise de narrativas de viagem como a de Castelnau (1949), Cunha Matos (1836), Jardim (1880), Magalhães (1863), Moraes (1995), dentre outros, foi possível analisar como no final do século XVIII e durante o XIX, essas oposições foram utilizadas de forma significativa para categorizar os agentes históricos que habitavam as margens do rio Araguaia e a própria espacialidade como o outro que representava o passado, o atraso, a selvageria, o estado de natureza. Entretanto, essa mesma oposição continuou a ser utilizada durante o século XX, sendo acionada em projetos e discursos oficiais para legitimar a Marcha para Oeste e a Expedição Roncador Xingu durante os governos Vargas, e o Projeto de Integração Nacional e a Operação Amazônia durante os governos militares, num período em que o ritmo temporal se acelerou diante de novas ocupações e conflitos nas margens do rio Araguaia que continuaram até as primeiras décadas do século XX. Por fim, a pesquisa analisa como essa mesma oposição entre passado e futuro foi utilizada em audiências públicas envolvendo um conflito de 2013 originário de Luciara, Mato Grosso. Esse conflito tem relação com a luta pela terra dos Retireiros do Araguaia para a permanência nos varjões do rio Araguaia e afluentes, onde criam gado sem cercamento das áreas. Uma luta que se intensificou após os anos 2000, com uma proposta de reserva extrativista e posteriormente com um projeto de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) “Mato Verdinho” que abrangeria partes dos territórios de três municípios do Tocantins e seis municípios do Mato Grosso. Essa proposta enfrentou resistência por parte dos seus moradores, sobretudo em Luciara - MT, local de um conflito em 2013 que resultou em manifestações com bloqueios de todos os acessos ao município, ameaças às lideranças dos retireiros e pesquisadores da UFMT e da Cartografia Social, além do incêndio de duas casas de retiros. A análise desse conflito parte da perspectiva debatida por Dosse (2014) e Sahlins (2007) sobre a relação entre acontecimento e processos históricos. Após o ocorrido, foram realizadas audiências públicas na Assembleia Legislativa de Mato Grosso e na Câmara dos Deputados, onde as narrativas e discursos carregam elementos da oposição entre passado e futuro identificados desde o século XIX para categorizar agentes históricos e o espaço, também presente na construção da memória e narrativas sobre o evento.


Palavras-chave


Rio Araguaia; Longa Duração; Passado/Futuro; Conflito; Luciara-MT.

Referências


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