Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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O deserto nas epístolas de São Jerônimo
EDUARDO SILVA LEITE

Última alteração: 22-11-18

Resumo


Munidos de doutrinas de impacto social como a do pecado, da disciplina, do
inferno, entre outras, nos finais do IV século, o poder do discurso cristão ascético sobre
a sociedade foi além de algumas pretensões e tensões que trazia estoicismo a tempos, a
exemplo, de quando aspirou infligir a todos os deveres do “sábio”. O poder do discurso
cristão, sobretudo dos anacoretas, não tiveram êxitos somente pela extraordinária
elaboração. Estes, muito mais do que aqueles, estiveram em posição privilegiada em
relação aos demais intelectuais cristãos, em virtude do processo histórico cultural que o
império sofreu desde o III século. Em grande medida, a valoração moral dos bispos e
ascetas cristãos do IV século os transformaram em “missionários morais” sem dúvida,
um reflexo histórico que tem suas origens em diversas culturas antigas.

O discurso do asceta cristão cobriu os espaços e pode dar novos significados a eles. Sobre novos olhares, o deserto, um lugar que “não há civilização” passou também a
significar um lugar não somente de protesto, mas uma espécie de estágio para
santificação, um lugar para purificação do homem e da mulher de Deus. Tornou-se com
o tempo um lugar de desprendimento do mundo e uma escola para o autoconhecimento
onde homens e mulheres ao entrarem ali nunca mais seriam os mesmos. O deserto
passou a ser o espelho da alma, o local de encontrar com a verdadeira natureza humana
e com o tempo transformou-se, sobretudo onde eremitas mantinham suas vidas, em
rotas de peregrinações, lugar de culto e veneração. O deserto foi atravessado por
centenas de pessoas em busca da verdade, da espiritualidade, e de outros problemas a
resolver. Essa construção do deserto foi possível graças às investidas dos Pais da Igreja
gregos e latinos.


Nos finais do IV século as vozes que concorriam para aliciarem pessoas ao
cristianismo foram ouvidas com maior evidência desde o deserto. É dentro desse
contexto que Jerônimo está inserido. Para nós, ele é um grande propagador do
cristianismo ascético nos finais do IV século. Jerônimo esteve em Roma, após sua
estadia em Calcis (deserto) exercendo uma função importante junto ao líder da igreja
romana, o bispo Dâmaso, uma espécie de consultor bíblico, o que lhe proporcionou
aproximar-se de figuras importantes para o fortalecimento de sua autoridade. Algumas
dessas pessoas constituíram-se como alvos para o monge estridonense cooptar para seu
círculo de discípulos inclinados ao ascetismo. Contudo nosso trabalho visa percorrer suas correspondências a procura das representações que faz do deserto. As epístolas foram escritas durante um período de aproximadamente 45 anos, isto é, de 374/75 d.C., até a morte de Jerônimo em 419 d. C. Endereçadas às mais diversas pessoas, o epistolário tem 154 cartas, destas, cento e vinte cinco compreende-se que são de sua autoria. É possível que Jerônimo durante sua passagem pelo deserto apresente-nos um e ao sair e passado algum tempo mostre-nos outro deserto que acompanhe suas relações sociais.

Palavras-chave


Deserto; São Jerônimo; Cristianismo