Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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EXPERIÊNCIA DE PREPARAÇÃO PARA O PARTO E SUAS REPERCUSSÕES NA COCONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA FEMININA
Renata Marien Knupp Medeiros

Última alteração: 03-10-18

Resumo


O modelo obstétrico hegemônico no Brasil é caracterizado por uma assistência hospitalocêntrica, medicalizada e intervencionista, que, ao longo do tempo, contribuiu para que mulheres fossem expropriadas de seus saberes, controle e participação no processo de parturição, impactando negativamente a experiência do nascimento. Considerando que a coprodução da autonomia depende do acesso do sujeito à informação e de sua capacidade de utilizar esse conhecimento em exercício crítico de interpretação, entende-se que práticas educativas problematizadoras, críticas e contra hegemônicas no curso do período pré-natal são estratégicas para o acesso a conhecimentos e reflexões indispensáveis para as escolhas e decisões sobre o que é melhor para si, contribuindo para coconstrução da autonomia.  Esta pesquisa, de perspectiva construtivista, tem como objetivo analisar as repercussões de uma experiência de preparação para o parto na autonomia expressa por gestantes durante o processo de parturição. O estudo adota como referencial metodológico a Pesquisa Convergente Assistencial (PCA) aliada à Teoria da Problematização com Arco de Maguerez, cuja associação tem se mostrado viável quando se tem como propósito realizar o processo investigativo associado atividades educativas que visam à transformação da realidade em estudo. O cenário do estudo consiste em uma Unidade de Saúde da Família (USF) localizada em região periférica do município de Cuiabá, Mato Grosso e as participantes selecionadas compõem um grupo de 12 gestantes que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: encontrar-se no primeiro trimestre gestacional; estar em acompanhamento pré-natal na USF cenário do estudo; e manifestar desejo em participar de um Programa de Preparação para o parto, denominado “Meu Parto”, proposto pela pesquisa. As participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e o projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Júlio Muller com parecer nº 2.441.206. A construção dos dados empíricos está transcorrendo em quatro etapas: 1) Entrevistas individuais, abertas e prolongadas, realizadas no período de julho a agosto de 2018, por meio do método de história de vida, com vistas a identificar aspectos das dimensões biopsicossociais que influenciam de modo singular a coconstrução da autonomia de mulheres; 2) Grupos de Convergência, que visam desenvolver a pesquisa em simultaneidade com a prática assistencial, realizados no contexto do Programa “Meu Parto”. Esta etapa teve início em junho de 2018 e se estenderá até novembro deste ano. 3) Observação participante do trabalho de parto e parto de todas as gestantes participantes, com o intuito de analisar as posturas e atitudes no decorrer desses eventos, com vistas a compreender de que forma a autonomia destas mulheres se manifesta no processo de parturição.  4) Entrevistas semiestruturadas no pós-parto, com o objetivo de aprofundar e validar alguns aspectos da observação participante, assim como de explorar as percepções das mulheres a respeito da autonomia expressa no processo de parturição por elas vivenciado. Os dados serão analisados conforme propõe o referencial metodológico adotado, que compreende as etapas de apreensão, síntese, teorização e transferência, com suporte teórico dos conceitos de “Autonomia” (ONOCKO CAMPOS; CAMPOS, 2006), “Poder Simbólico” (BOURDIEU, 2011) e “Violência Simbólica” (BOURDIEU, 2011). As práticas educativas problematizadoras propostas pelo Programa “Meu Parto” têm promovido o envolvimento e a participação ativa das gestantes e de seus acompanhantes, uma vez que coloca o sujeito como corresponsável pela construção do seu conhecimento. As ações têm se pautado no estabelecimento de vínculo; no diálogo crítico; no apoio mútuo e nas relações livres de coerção. Os resultados parciais apontam para a potência existente nesta proposta, principalmente pela segurança gerada para a vivência do processo parturitivo.

 


Palavras-chave


Autonomia pessoal; Parto normal; Educação em saúde; Parto humanizado.

Referências


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