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KYWENU: A PINTURA CORPORAL COMO A VESTIMENTA DA PELE ENTRE OS KURÂ-BAKAIRI
Isabel Teresa Cristina Taukane, Ludmila de Lima Brandão

Última alteração: 04-10-18

Resumo


A pesquisa trata dos grafismos do povo indígena Kurâ-Bakairi no contemporâneo que habitam duas Terras Indígenas, ambas em Mato Grosso, Brasil e são falantes do idioma pertencente ao tronco linguístico karib. Trataremos especificamente dos grafismos produzidos sobre a pele, esse corpo localizado em determinado contexto sociocultural. Abordaremos a prática dessa arte visual, na perspectiva de uma “vestimenta da pele” que segue resistindo ao processo colonizador de desmonte do povo Kurâ-Bakairi e de seus saberes e de como ela se reinventou exatamente para permanecer. O propósito é tomar a pintura corporal em uma abordagem interdisciplinar (estudos de cultura, arte visual, comunicação, performance, moda) evitando reduzir o estudo ao campo das significações.

A “vestimenta” abordada é tecida na pele, onde corpo e pinturas constituem-se como um só evento, não dissociados, diferentemente do que acontece nos vestuários têxteis cujas peças são independentes do corpo e que podemos tirar, lavar, secar, engomar (calça, camiseta entre outros). O mesmo pode ser dito dos adornos que são componentes do vestuário. Aqui, veste-se o corpo com pintura; com traços de tinta destinados a sumirem depois de alguns dias; uma vestimenta efêmera.

Esta tentativa de seguir uma definição Kurâ-Bakairi para sua pintura corporal é um esforço de pensar estas artes desde o pensamento de seus praticantes, articulando criticamente teorias e ideias ocidentais e colonizadoras, como se espera de uma abordagem decolonial.

No estudo da vestimenta (moda) é possível conhecer uma determinada sociedade, época, as crenças e as culturas (CASTILHO, 2004). Assim sendo, no estudo da vestimenta-pintura corporal Kurâ-Bakairi devemos levar em consideração pelo menos três momentos históricos da etnia: I) O tempo mítico no qual surgiram as mitologias de onde advém a cosmovisão da etnia / Epistemologias Decoloniais – O corpo “nu”/A pintura corporal como vestimenta -  que seria o pré-contato; II) A Colonização da Estética -  aqui  considero o período da implantação do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) o período no qual foram empreendidas intensas imposições para que a etnia aprendesse os modos da “civilização”, como por exemplo: a utilização da roupa ocidental dentre outros, que resultou na transformação das subjetividades – O corpo vestido de maneira ocidental; III) O tempo atual que é o resultado de todos esses processos –  pós-colonial – o corpo resistente / a pintura como resistência. Compreendemos, assim, que a colonização/colonialidade não opera somente no espaço geográfico territorial, mas também nas matrizes da colonialidade do ser, do saber e poder, que perduram até os dias atuais (MIGNOLO, 2003) na atualidade a pintura corporal, se reinventa e acompanha as inevitáveis modificações referentes a seu uso primordial e de sentidos.

 

 

 

 


Palavras-chave


Pintura Corporal, Vestimenta, Corpo

Referências


BARROS, E. P. Os Filhos do Sol: História e Cosmologia na Organização de um Povo Karib: Os Kurâ- Bakairi. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003.

CASTILHO, K. Moda e linguagem. São Paulo: Editora Anhembi Morumbi,2004.

MIGNOLO, W. História Locais/Projetos Globais: Colonialidades, saberes subalternos e pensamentos liminar. Belo Horizonte, Editora: UFMG, 2003.

LINS, R.J.S. Hiperderme: Pintura Corporal Nas Sociedades Indígenas E Contemporânea. 2011. Tese ( Doutorado em Ciências da Comunicação).Universidade Católica Portuguesa. Coimbra, Portugal.

LUX, V. Grafismo Indígena: Estudos de Antropologia Estética. São Paulo: Studio NoBEL: Editora da Universidade de São Paulo: FAPESP, 1992. 296 p. ISBN 978-85-85445-02-7/978-85-314-0066-7.