Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

Tamanho da fonte: 
ESTRATÉGIAS POÉTICAS NO ESPETÁCULO CARNE: UMA NARRATIVA SOBRE A MEMÓRIA
leandro santos de brito

Última alteração: 18-10-18

Resumo


A presente pesquisa é uma investigação acerca das estratégias poéticas fundamentais ao espetáculo Carne: uma narrativa sobre a memória, produção da Solta Cia de Teatro, de Cuiabá, Mato Grosso. Entende-se esse espetáculo como uma narrativa híbrida, interartística e intermidiática. A proposta cênica foi construída a partir de textos que abordam como tema central a opressão, para o que recorreu a vários gêneros literários. A composição cênica dialoga com as artes plásticas, dança, audiovisual, teatro, bem como recursos de figurino, iluminação, cenário e a disposição da plateia no palco. As performances possibilitam ao espectador um ponto de vista particularizado e valorizado pelos fragmentos propostos, que atuam como estratégia de construção da cena e como exigência do percurso de leitura. Nessa perspectiva, o fragmentário, torna-se um ato político de ressignificação do objeto artístico, uma forma de leitura necessária, que viabiliza a multiplicidade de sentidos. Ao pensar neste objeto, composto por fragmentos tão distintos entre si, é importante destacar o modo reticular como os mesmos se articulam na composição narrativa do espetáculo. A organização interna da apresentação aproxima-se da figura da rede, que articula elementos heterogêneos de maneira não hierárquica, em uma relação dialógica, polifônica, de convergência, onde todas vozes são atuantes na produção de significados. Cada uma das performances equivaleria, portanto, a um nó da rede entrelaçado na trama do espetáculo, construído através da união das narrativas. Tal ordem impõe o fio condutor do espetáculo traçando um percurso narrativo e visual, no qual as mudanças de direção do olhar, e mesmo do corpo, são essenciais para apreensão dos fragmentos. Isso nos remete ao conceito de coleção, dado que concebemos coleção, normalmente, como um agrupamento de coisas que pertencem a uma mesma classe e estão organizadas segundo uma determinada norma, formando um todo coerente e coeso, ainda que os elementos que a componham mantenham sua individualidade. Podemos observar, em Carne, que o sentido de coleção se mostra como uma estratégia poética, pois propõe como única norma de pertencimento à “coleção do espetáculo” que as performances tenham um tema unificador. Assim, ao apresentar junções ímpares, como uma atriz do século XXI, um negro nos porões de um navio negreiro, um programa de auditório, entre outras situações que rementem a vivências históricas do passado e atuais, observa-se que sua diversidade torna mais interessante a aproximação arbitrária proposta, pois a coleção engendra em si os movimentos de deslocamento e seleção, escolhidos unicamente pela proposta artística da Cia. Ao mesclar várias linguagens artísticas, Carne demonstra a dissolução das fronteiras entre essas linguagens, quanto à hibridação dos sistemas sígnicos, quanto à intertextualidade e intermidialidade. Consequentemente, ao pensarmos no espetáculo pensamos em mobilidades e deslocamentos, que desestabilizam as fronteiras entre as artes que, ao diluí-las, abre espaço para a construção de uma nova sensibilidade. Proporcionando ao público a possibilidade de sair de seu lugar de passividade e sentir os cheiros, as cores, as texturas da peça, assim como tecer costuras entre linguagens artísticas oriundas dos mais diversos campos, atuando, diretamente, sobre o espaço simbólico e imagético.

Palavras-chave


Coleção; Estratégias Poéticas; Fragmento; Interartes; Rede

Referências


LATOUR, Bruno. Redes que a razão desconhece: laboratórios, bibliotecas, coleções. In: BARATIN, Marc; JACOB, Christian (Org.). O poder das bibliotecas: a memória dos livros no Ocidente. Tradução de Marcela Mortara. 3. ed. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2008.

COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Tradução de Cleonice P. B. Mourão. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007.

KASTRUP, Virgínia. A rede: uma figura empírica da ontologia do presente. In: PARENTE, André (Org.). Tramas da rede: novas dimensões filosóficas, estéticas e políticas da comunicação. Porto Alegre: Sulina, 2004.

MUSSO, Pierre. A filosofia da rede. In: PARENTE, André (Org.). Tramas da rede: novas dimensões filosóficas, estéticas e políticas da comunicação. Tradução de Marcos Homrich Hickmann. Porto Alegre: Sulina, 2004.

FOUCAULT, Michel. Outros espaços. In: FOUCAULT, Michel. Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

MOREIRA, Maria Elisa Rodrigues. Literatura e biblioteca em Jorge Luis Borges e Italo Calvino. 2012 Tese (Doutorado em Letras). Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais.

BENJAMIN, Walter. O colecionador. In: BENJAMIN, Walter. Passagens. Tradução de Irene Aron e Cleonice Paes Barreto Mourão. Belo Horizonte: Ed. UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007.

BAKHTIN, M.M. Problemas da poética de Dostoiévski. Tradução de Pulo Bezerra. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.