Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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Práticas de Resistência na Produção Audiovisual A`uwê Xavante
Gilson Moraes da Costa, Dolores Cristina Gomes Galindo

Última alteração: 04-10-18

Resumo


A partir do final da década de 1990 e incício dos anos 2000, o audiovisual indígena passa a compor um cenário eclético sedimentado por produções de diferentes etnias. Nesta pesquisa temos o interesse de apresentar uma interpretação sobre o percurso, o fortalecimento e a consolidação da produção audiovisual por realizadores e coletivos indígenas no contexto do Brasil contemporâneo, defendendo seu atravessamento militante que crava linhas de fuga e subverte a ordem estética e política do cinema moderno. O povo Xavante, habitante da região leste do estado de Mato Grosso, assume protagonismo neste cenário com a produção de narrativas a partir de um campo de ação que congrega indigenistas, organizações não governamentais, realizadores indepentendes e, fundamentalmente, cineastas oriundos do seio de suas comunidades.  Divino Teserewahú e Caime Waiasse são realizadores que compõem suas narrativas em diálogo com as comunidades em que habitam. Revelam, em seus documentários, um cotidiano singular composto por rituais, ações de resistência e vivências que transpassam o dia-a-dia de seus personagens. Produzem um discurso visual alinhado com a cosmologia de seu povo como estratégia de autoafirmação e reconhecimento enquanto etnia diferenciada. Com isso, contrapõem uma perspectiva cinematográfica construída historicamente a partir do olhor do outro (esse outro, um não-indígena). Oferecem ao expectador um mosaico de possibilidades outras, subvertendo o lugar da câmera no processo de filmagem e fazendo dela uma extensão de seus corpos que adentram celebrações religiosas, conflitos territoriais e práticas ritualística de um universo cultural muitas vezes inexplorado. Neste sentido, o audiovisual se configura como uma importante ferramenta de afirmação dando potência para uma legitimidade cultural desde uma perspectiva tecnológica que foi apropriada pelos indígenas e tem sido usada de forma instigante para suas pretensões culturais e políticas. Propomos uma análise que possa trazer para o primeiro plano aspectos relevantes da afirmação  política e cultural dos Xavante observadas em filmes em que estes personagens assumem protagonismo seja na concepção e/ou na realização destas narrativas. Como estratégia metodológica optamos pela realização de uma etnografia compartilhada, na qual acompanhamos o trabalho dos realizadores em seu locus de produção compreendendo a dinâmica social muitas vezes não captada pela câmera. Considerando o estudo preliminar já desenvolvido para esta tese, é possível ponderar que o olhar construído com a câmera pelos cineastas Xavante assume singularidade e produz uma estética própria que escapa à normalização do regime de verdade documental moderno. Identificamos nestas produções um cinema que transborda a constituição mesma da imagem, cuja representação simbólica e política está além dos limites do quadro fílmico, abrindo possibilidades para o que me atrevo a denominar de cinema de(s)colonial que apresenta singularidades no domínio da imagem (campo) e das estratégias de produção (ante-campo). De outra parte, as narrativas fílmicas protagonizadas por realizadores indígenas indicam que os mesmos estão interessados no aperfeiçoamento de um novo meio de representação e o usam como meio para afetar e transformar sua cultura e a concepção que têm de si mesmo.


Palavras-chave


Audiovisual Indígena; Povo Xavante; Afirmação étnica

Referências


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