Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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A sacralização do político nos escritos schmittianos: o mito do líder e a unidade total do povo (1921-1946)
Alencar Cardoso da Costa, Rodrigo Davi Almeida

Última alteração: 22-11-18

Resumo


Este trabalho tem como objetivo apresentar os resultados parciais sobre a pesquisa de doutoramento referente aos escritos do jurista alemão do século XX, Carl Schmitt. Buscamos analisar como as ideias políticas e jurisprudenciais de Carl Schmitt possibilitaram a construção de um discurso sacralizado sobre o político, por meio do avivamento mítico sobre o papel do líder numa sociedade “democrática”, visando a promoção de uma “democracia total” (1921-1945). A matriz referencial de Carl Schmitt foram os pensadores contrarrevolucionários, tendo ele, profunda admiração ao pensador e político espanhol Donoso Cortes. Tendo uma matriz autoritária e antiliberal, os escritos schmittianos se contrapuseram aos Direitos Humanos, ao Estado de Direito e a Liga das Nações. Defendendo que a política está baseada na eterna luta entre o amigo e o inimigo, legitimando o extermínio físico dos inimigos internos e externos. Durante o período em análise, os escritos schmittianos se constroem pela negatividade à República de Weimar (1919-1933), à admiração ao fascismo italiano e pelo engajamento aos ideais e ações da Ditadura Nazista (1933-1945). A sua trajetória intelectual é marcada pela sua participação ao Movimento Nazista, tendo se filiado ao NSDAP em 1933, mas acabou por sair dos quadros do partido em 1936. Para Carl Schmitt, apenas um líder aclamado pelo povo poderia verdadeiramente representar a vontade deste. Onde, após a aclamação, o povo deveria se despolitizar e obedecer às decisões do líder. O poder decisório é elevado a uma espécie de culto onde possui um caráter miraculoso. Constituindo-se numa religião política, produzindo a sacralização da política por meio de ritos, símbolos e mitos, conduzindo à uma submissão total do povo aos ditames da ideologia propagadas pelo líder. Dessa forma, Carl Schmitt se distanciou da racionalização da política defendida pelos iluministas, sendo que o autoritarismo do seu decisionismo político possuí um caráter antidemocrático e contrário aos Direitos Humanos básicos.  Assim sendo, um terreno fértil para a defesa de um Estado Total e do extermínio físico dos seus opositores.

 


Palavras-chave


Schmitt; Nazismo; Religião Política

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