Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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A escrita de si como prática libertadora: cartas de Antonia Rosa, Ignez Pereira, Antonia Rodrigues e Maria Ruth apreendidas em processos criminais de defloramento instaurados em Cuiabá (1920-1940)
Mayara Laet Moreira

Última alteração: 22-11-18

Resumo


A investigação procura positivar as experiências vividas por Antonia Rosa, Ignez Pereira, Antonia Rodrigues e Maria Ruth, que tiveram suas trajetórias existenciais atravessadas pela instauração de um processo crime de defloramento ocorrido na cidade de Cuiabá, entre os anos de 1920 a 1940. Para tanto, a análise recai sobre as cartas que foram apreendidas no desenrolar processual, servindo tanto como provas incriminatórias quanto de absolvição. A escrita de cartas permite focalizar as movimentações de mulheres em posição de invisibilidade, abrindo espaço para a autonomia e a tomada de palavra, já que a todo o momento a ordem jurídica tentou localizá-las e prendê-las numa rede de saber-poder. Debruçar sobre essa fonte histórica é perceber os processos de produção de uma subjetividade feminina autônoma, que resistiu e transpôs as subjetivações ligadas à família e ao Estado. O gênero enquanto categoria de análise nos permite dar visibilidade aos discursos que fundamentaram o senso comum, a literatura e os jornais da capital mato-grossense, em que o feminino e o masculino eram submetidos a modelos de comportamentos, bem como os discursos jurídicos, médicos e pedagógicos, que buscaram normatizar as relações entre os sexos. O diálogo com o filósofo Michel Foucault é de suma importância para evidenciarmos os processos de subjetivação da sexualidade e dos comportamentos, como também para potencializarmos a vida dessas quatro mulheres como obra de arte, de modo a construir uma ação libertadora (das imposições e fluxos sociais, políticos, culturais de dado momento), pois nos experimentamos por diferentes modos no ato em que compomos nossa escrita.

 

 


Palavras-chave


Subjetividade feminina; Gênero; Crime de Defloramento.

Referências


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