Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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O cinema invisível: Por uma cartografia afetiva do acontecimento cinematográfico
Thiago Cardassi Sanches, Maria Thereza de Oliveira Azevedo

Última alteração: 16-10-18

Resumo


O cinema, mais do que um meio, suporte, produto ou obra, é uma processualidade da ordem dos acontecimentos que conjuga na experiência do observador elementos heterogêneos e semióticas de caráter misto (GUATTARI). Por esta razão, seu estudo demanda ferramentas metodológicas que sejam capazes de mapear não apenas narrativas e representações (semióticas significantes), mas também imagens (semióticas simbólicas), afetos, intensidades, velocidades, intervalos, e temporalidades (semióticas a-significantes) (LAZZARATO). Sem negar a importância determinante das camadas de representação e significação, este estudo aborda o cinema a partir da lógica do acontecimento (DELEUZE) para afirmar o campo das virtualidades que habitam a tessitura dos filmes, reivindicando a percepção de um corpo sensível capaz de apreendê-las. Este corpo não vem pronto, é necessário reinventá-lo constantemente para que seja possível captar aquilo que em um filme insiste para além dos regimes do visível (a parte que se apresenta a consciência que o observa), e participar dele junto das forças invisíveis (NIETZSCHE) que animam o plano de composição cinematográfico. Este conjunto de forças designa uma multiplicidade de quase-seres absolutamente reais que se encontram dispersos em estado de potências não-formadas e a-centradas que atravessam a subjetividade do observador (LAPOUJADE). Neste sentido, eu não tenho uma perspectiva sobre o filme, pelo contrário, é o filme que me faz entrar em uma de suas muitas perspectivas de acordo com a maneira que me afeta, ou seja, segundo o tipo de potência que suscita em meu corpo (ESPINOSA). O problema que mobiliza esta pesquisa é precisamente como fazer ver estas perspectivas, essa dimensão invisível da duração do acontecimento cinematográfico (BERGSON)? Na medida em que fazer ver é também fazer existir, qual método poderíamos utilizar para tornar mais real aquelas micropotências que nos atravessam? Quem testemunha algo tem potencialmente a capacidade, mas também a responsabilidade de fazer ver aquilo que teve privilégio de ver, sentir ou pensar. É neste ponto em que o observador se torna um criador, pois ele só pode fazer isso recomeçando a criação, atualizando estas forças de acordo com seu próprio modo de existência (ULPIANO). Uma vez que o processo de experimentação cartográfica (ROLNIK) constitui um procedimento metodológico aberto voltado para a apreensão das virtualidades e dos afetos transitórios do mundo (DELIGNY), proponho deslocar seus usos tradicionais no campo social para se repensar a dimensão das forças intensivas que percorrem a arte da imagem-movimento. Desta maneira, no lugar da interpretação, enfatizamos a experimentação criadora do acontecimento cinematográfico por meio do traçado de mapas sensíveis do movimento e das potências que nele habitam.