Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

Tamanho da fonte: 
AS CRIANÇAS E O SEU RECREIO ESCOLAR: um estudo etnográfico sobre a ludicidade na terceira infância
Moacir Juliani, Cleomar Ferreira Gomes

Última alteração: 14-10-18

Resumo


Dentre os rituais escolares, o recreio tornou-se objeto de estudo pela sua singularidade e caráter no qual corre uma possibilidade maior de liberdade e de aparecimento de práticas corporais ligadas à cultura lúdica e ao ócio. Sabe-se que entre as atividades desenvolvidas pelos estudantes no espaço do recreio, as brincadeiras sempre estiveram presentes e marcaram as infâncias de épocas distintas. Ariès 1978, Brougère 1995, Caillois 1990, Château 1987, Elias 1994, Frago 1998, Benjamin, 2014, Geertz, 1989, Kishimoto 2016 MANSON 2002, Moyles 2006, Piaget 1975, Sutton-Smith 1986, e Winnicot 1975, foram  alguns teóricos que nos ajudarão a pensar esse tema. As brincadeiras aparecem como formas da cultura de cada época e de possibilidades de relação das crianças com seus pares em diferentes faixas etárias. Sempre que a infância é abordada, seu êthos lúdico é associado na busca pelo seu significado para a criança e suas aprendizagens. O recreio sempre foi concebido como espaço-tempo de repouso, de pausa entre os turnos de trabalho na escola, tempo de lanchar e de atividades de eleição das crianças com/sem a supervisão de seus professores. Mediante estas considerações buscar-se-á responder às questões que seguem: O recreio escolar da atualidade é espaço-tempo de manifestação de cultura e energia lúdica? Que relações são possíveis nele? Estas relações podem ser tão importantes como as de sala de aula? A partir destas interrogações intencionou-se compreender o recreio escolar como espaço-tempo de manifestação da cultura lúdica, bem como as relações que nele ocorrem para além das salas de aula, no seu grau de importância formativa para estudantes que vivenciam a terceira infância. Foi realizada pesquisa de inspiração etnográfica na qual foram observados os estudantes com 11 e 12 anos nos espaços-tempos do recreio de escola pública, escola confessional e escola da rede privada. Constatou-se que ludicidade apresenta-se de forma constante através das atividades configuradas como brincadeiras, jogos, movimentos de oposição, competição, de relações de poder, inclusão, exclusão, singularização de identidades, alteridades e subjetividade, de protagonismos, atração e repulsa, dos corpos que evidenciam sua sensualidade e sexualidade potencializado pela “cumplicidade lúdica”; o espaço-tempo dentro da instituição escolar que apresenta a natureza das relações que mais se aproxima com a realidade vivenciada em casa, na rua, no bairro, na cidade, o que nos permite enfatizar que o mesmo é o “mundo real que se materializa dentro da escola”; é o tempo do acontecimento, mas que ao mesmo tempo apresenta-se ritualizado nas rotinas desenvolvidas pelos estudantes e tão ou mais sagrado que o espaço-tempo da sala de aula; A ludicidade sentida e percebida pelos indivíduos que fazem parte da Instituição Escola ― estudantes, professores, gestores ― é menor que a ludicidade que se desenvolve no contexto do recreio escolar e que enquanto a escola com suas atividades, concepções e proposições para o recreio escolar está situada na “retórica do progresso”, os estudantes estão evidenciando a “retórica do self”, da experiência pessoal.


Palavras-chave


Recreio Escolar. Cultura Lúdica. Relações Infância

Referências


ARIÈS, P. História social da infância e da família. Tradução: D. Flaksman. Rio de Janeiro: LCT, 1978.

BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. Tradução, apresentação e notas Marcus Vinicius Mazzari, Livraria Duas Cidades, editora 34, 2014.

BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e cultura. São Paulo: Cortez, 1995.

CAILLOIS, Roger. (1958). Os jogos e os Homens: A máscara e a vertigem. Lisboa: Edições Cotovia, 1990.

CHÂTEAU, Jean. O jogo e a criança / Jean Château ; [tradução Guido de Almeida]. – São Paulo : Sumus, 1987.

ELIAS. Norbert. 1897-1990. O processo civilizador I Norbert Elias; tradução Ruy Jungman; revisao e apresentação Renato Janine Ribeiro.  -2.ed. -Rio de Janeiro: Jorge ZaharEd., 1994

FRAGO, Antonio Viñao. Do espaço escolar e da escola como lugar: propostas e questões. In: FRAGO, Antonio Viñao; ESCOLANO, Augustín. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa. Rio de Janeiro: DP&A, p. 59-140,1998.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas, Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1989.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida, SANTOS, Maria Walburga. Jogos e brincadeiras: tempos, espaços e diversidade: (pesquisa em educação) / Tizudo Morchida Kishimoto, Maria Walburga dos Santos, (orgs.). – São Paulo : Cortez, 2016.(Organizadoras). – Campina Grande: EDUEPB, 2011.

MANSON, Michel. História do brinquedo e dos jogos: brincar através dos tempos. Lisboa: Editorial Teorema, 2002.

MOYLES, Janet R. A excelência do Brincar: a importância da brincadeira na transição entre educação infantil e anos iniciais / Janet R. Moyles... [et al]; trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese. – Porto Alegre : Artmed, 2006.

PIAGET, Jean. A FORMAÇÃ DO SÍMBOLO NA CRIANÇA: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Tradução de Álvaro Cabral e Cristiano Monteiro Oiticica. Terceira Edição. Zahar Editores, Rio de Janeiro. 1973.

SUTTON-SMITH, B.  A ambiguidade da Brincadeira. São Paulo: Editora vozes,  2016

WINNICOT, D. W. O Brincar & a Realidade. Coleção Psicologia Psicanalítica. Direção Jaime Salomão. Rio de Janeiro. IMAGO EDITORA LTDA, 1975.