Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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Ecologia e diversidade funcional da fauna de lagartos em ambientes estruturalmente distintos de uma savana neotropical
Rafael Assis Barros, Christine Strussmann

Última alteração: 25-10-18

Resumo


A heterogeneidade estrutural é um dos fatores responsáveis por influenciar e determinar quais espécies podem ocorrer em um determinado ambiente, bem como a distribuição de traços funcionais e as funções ecológicas exercidas pelas espécies dentro do ecossistema. Nesse estudo, analisamos como ambientes abertos e florestados influenciam a estrutura de comunidades e ecologia funcional das assembleias de lagartos em uma região de savana neotropical. O estudo foi realizado na Estação Ecológica da Serra das Araras (SAES), municípios de Cáceres e Porto Estrela, Mato Grosso, Brasil (15°33 N, 15°39 L; 57°03 N, 57°19 L). A coleta de dados ocorreu entre abril de 2009 e junho de 2010. Por meio de armadilhas de interceptação (pitfalls), amostramos os lagartos em fitofisionomias abertas (cerrado sensu stricto e parque cerrado) e florestadas (cerradão, mata ciliar, mata semidecídua). Os pitfalls consistiram em dez conjuntos de armadilhas (dois conjuntos por fitofisionomia), cada um deles formado por dez baldes plásticos de 60 litros. Para as análises de diversidade funcional, utilizamos uma matriz com 13 traços funcionais: comprimento rostro-cloacal médio, comprimento médio da cauda, hábito (arborícola, criptozóico, semiarborícola, terrestre), estratégia reprodutiva (ovíparo, vivíparo), formato do corpo (cilíndrico, comprimido, serpentiforme) e grau de heliotermia (heliotérmicos, não-heliotérmicos). Nós registramos 292 lagartos de 16 espécies. As fitofisionomias abertas apresentaram os maiores valores de riqueza (cerrado sensu stricto 12, parque cerrado 11 espécies). As famílias de lagartos que apresentaram a maior riqueza de espécies na SAES foram Gymnophthalmidae (5 espécies), seguida por Scincidae e Teiidae (3 espécies cada). Ambientes abertos e florestados diferiram significativa nos valores de riqueza (t = 5.6, df = 8, p < 0.001) e diversidade de Simpson (t = 2.474, df = 8, p = 0.038), ambos maiores nos ambientes abertos. Também a composição de espécies diferiu significativamente entre ambientes abertos e florestados (Permanova – F = 18.715, p < 0.01). Em relação à ecologia funcional, houve diferença significativa nos valores de Divergência Funcional (t = - 6.736, df = 8, p < 0.0001), maior nos ambientes florestados. No entanto, não houve diferença significativa nos valores de Diversidade Funcional (t = 2.245, df = 8, p = 0.055). Os resultados até agora obtidos demonstram que, apesar da maior riqueza e diversidade de lagartos nos ambientes abertos, ambientes florestados apresentam maior equilíbrio na distribuição dos traços funcionais e nas funções ecológicas exercidas pelas espécies. A utilização de diferentes medidas ecológicas é uma importante ferramenta para determinar os mecanismos que estruturam comunidades biológicas, contribuindo para a tomada de medidas e ações de conservação visando à proteção das espécies e de suas funções ecológicas no ecossistema.


Palavras-chave


Cerrado, Ecologia funcional, herpetofauna, heterogeneidade ambiental.

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