Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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ESTIGMA RACIAL E AUTO-ESTIMA DO NEGRO: O PAPEL DA SUBJETIVIDADE NO PROCESSO DE ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL BRASILEIRO
Laion Loester de Paula Dias Gonçalves, Danie Marcelo de Jesus

Última alteração: 18-10-18

Resumo


A importação forçada de africanos para o Brasil na condição de mercadoria útil para trabalho escravo, produziu, ao longo de nossa historia, um estigma: a depreciação estética e moral à indivíduos com fenótipo afrodescendentes. As teorias de estratificação social importadas do estrangeiro dão prevalência à condição econômica, familiar e escolar do sujeito (estrutura estruturada) ainda sendo pouco estudado os desdobramentos comportamentais do negro socialmente estigmatizado que retroalimentam a estratificação social (estrutura estruturante). Ou seja, está se diante de não apenas reafirmar a força da estrutura social (estrutura estruturada), mas de identificar a maneira pela qual tal o estigma racial opera na subjetividade do negro como  agente estruturante do processo de estratificação social. Portanto, para melhor entendimento da relação entre estigma, comportamento e estratificação social, tornou-se necessário um estudo bibliográfico interdisciplinar entre a dimensão social, psíquica e subjetiva, permitindo, assim, realizar uma conjectura teórica através do método hipotético-dedutivo de Karl Popper sobre os efeitos do estigma racial interiorizado no negro capaz de constituir um comportamento estratificante. A conjectura teórica formulada é de que o estigma racial, ao atribuir adjetivos (“sujo”, “demoníaco”, “macaco”, etc.) e expectativas (“não será capaz”, “não será inteligente”, “ele deve ser perigoso”, etc.) ao negro, este, tenderá a formar representações de si incompatíveis com posições hegêmonicas de prestígio social. Logo, não apenas os fatores econômico, familiar e educacional desfavorecem a ascensão social do individuo dotado de fenótipos afrodescendentes, mas o próprio efeito do estigma racial na produção da  subjetividade do negro exerce força estratificante na sociedade brasileira – na medida em que negros desenvolvem comportamentos "desviantes" ou distantes das expectativas socialmente  hegemônicas. Este empreendimento teórico justifica-se por trazer à seara dos estudos de estratificação social a dimensão do estigma interiorizado no próprio sujeito estigmatizado que replicará na constituição de sua subjetividade. Portanto, levar em conta a própria auto-estima do estigmatizado é, também, deduzir que os espaços sociais em que o sujeito sente o estigma devem ser dados a devida atenção pelas políticas públicas. O ambiente escolar, como exemplo, é fortemente local de produção e reprodução dos estigmas. Desse modo, o desempenho escolar do negro pode não só ser resultante do baixo capital cultural oriundo das relações familiares e da pobreza, mas também, pela dificuldade subjetiva de associação simbólica entre as posições sociais hegemônicas de prestígio e sua condição de negro, replicando em comportamentos avessos ao padrões hegemônicos. Essa é uma das deduções possíveis fundamentadas nessa pesquisa, justificando assim, sua importância não só ao ambiente acadêmico, mas também à produção de políticas públicas que visam equalizar as condições sociais de acesso a oportunidades no tecido social brasileiro. Afinal, para que o negro aproveite as oportunidades, torna-se necessário que o negro veja a si mesmo como capaz e simbolicamente associado às posições hegemônicas de prestígio social.

Palavras-chave


estigma racial; auto-estima; estratificação social

Referências


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