Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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O PATRIMÔNIO COMO MEDIAÇÃO: o Memorial da Chacina do Beco do Candeeiro.
GABRIELA RANGEL SILGUEIRO

Última alteração: 22-10-18

Resumo


A pesquisa apresenta uma situação etnográfica que é reveladora da relação com os objetos mostrando como materialidades específicas são acionadas como dispositivos para a produção de memórias, de apelos por visibilidade e para construção de discursos contra hegemônicos. O grupo observado que interage com os objetos materiais aqui tratados é um grupo de pessoas em situação de rua, habitantes do Beco do Candeeiro no Centro Histórico de Cuiabá, Mato Grosso. Trata-se de um grupo estigmatizado que alcança “certa visibilidade” pela representação escultórica que faz um artista de uma chacina ocorrida em 1998. A escultura, tratada pelos elaboradores como memorial, será ponto de partida de diálogos que retratam a vida no Centro nos anos 1990 e que fazem brotar antagonismos de classe e raça nos “sobreviventes da chacina” – como eles se descrevem.

Em 2017 os antagonismos de classe exaltados pelo memorial da chacina do Beco do Candeeiro sofrem novo conflito com a demolição do “Casarão”, local de moradia de muitos “sobreviventes”. A demolição foi realizada tendo em vista as “revitalizações” para o aniversário de 300 anos de Cuiabá, assim as intervenções do planejamento estratégico urbano acionam o Fórum Pop Rua - entidade que reúne organizações cíveis e instituições públicas responsável por propor e acompanhar as políticas públicas para pessoas em situação de rua - que se aproxima definitivamente da população em situação de rua daquele local. A demolição faz convergir os discursos contra hegemônicos do Fórum e dos moradores “expulsos” e abre trocas de informações, bens e pessoas com os “sobreviventes”. O envio de duas pessoas para o Encontro de Pessoas em Situação de Rua determina que o Movimento Nacional de Pessoas em Situação de Rua (MNPSR), seus valores e rituais, entrem no circuito dos habitantes do Beco do Candeeiro. No mesmo momento o memorial é objeto de cultos e rituais rearranjados dentro desse diálogo. A partir disso a identidade de “pop rua” começa a ser acionada pelos “sobreviventes” da chacina em determinados espaços e sob determinadas condições a fim de obter direitos.

A pesquisa visa, portanto, investigar as agências de objetos materiais específicos que são classificados como “arte” que, conforme assinala Gonçalves (2007), tratam-se de “fatos sociais totais” , ou seja, objetos que organizam e constituem a vida social.

Assim, ao investigar as “revitalizações urbanas” como processos de produção do espaço capitalista na tentativa da superação – ou seria da desresponsabilização? – de suas crises cíclicas (Harvey, 2005) tomo a cidade como museu, fazendo ressaltar seu Centro Histórico como “[...] constituído material e simbolicamente pelo tenso cruzamento entre grupos étnicos, classes sociais, nações, categorias profissionais, público, colecionadores, artistas, agentes do mercado de bens culturais, agentes do Estado, etc.” (Gonçalves, 2007).

Referenciada pela antropologia dos objetos e pela antropologia urbana, busco descrever e interpretar as ideias e valores dos diferentes atores sociais que se relacionam através do memorial da chacina do Beco do Candeeiro. Como adendo, descrevo o processo de acionamento identitário pelo qual passam esses meninos e meninas “sobreviventes”.


Palavras-chave


patrimônio; antropologia dos objetos; patrimonialização do trauma; produção do urbano; identidade

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