Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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Tornar-se cego: agência, subjetividade e ritual de passagem entre pessoas com deficiência visual em Cuiabá/MT
Leonardo Bueno Yamamura

Última alteração: 22-10-18

Resumo


Este pôster apresenta parcialmente a pesquisa, em nível de mestrado, realizada no âmbito do PPGAS-UFMT, acerca dos aspectos simbólicos presentes no processo de autorreconhecimento enquanto cego e a transição de um estado de negação para o de readequação. Utilizou-se a etnografia como metodologia de pesquisa, a partir da aplicação de técnicas como entrevistas abertas e observação participante. Os três contextos nos quais se situou a presente investigação são: o Instituto de Cegos de Estado de Mato Grosso (ICEMA), a sala braille da biblioteca estadual Estevão de Mendonça e o Centro de Apoio e Suporte à Inclusão da Educação Especial (CASIES). Nestes dois últimos, participei de cursos do sistema braille junto a outros professores da rede pública que trabalham com estudantes com deficiência visual, tanto a cegueira total quanto a baixa visão. A partir das discussões de Victor Turner (1998) e Van Gennep (1978) sobre o processo ritual, proponho uma abordagem que pense, particularmente no tocante à ideia de liminaridade e reintegração, a passagem do sujeito que enxerga para a de um agente detentor de uma nova sensibilidade, própria do corpo cego. Ao mesmo tempo, dialogo com Sherry Ortner (2007, 2011) e sua discussão da Teoria da Prática e da relação da subjetividade e poder como resultado de um encontro da agência e da coletividade em mútua implicação. Nesse sentido, percebe-se nos relatos das pessoas com cegueira, e também a partir dos comentários daqueles que atuam com eles nas instituições de ensino e de apoio à inclusão, que ocorre uma transformação entre alguns cegos, notadamente naqueles que se readequam à nova condição corporal. Nesse momento, constatou-se, por exemplo, o frequente relato de que não se entendiam como tal, apesar do diagnóstico médico. Essa estrutura biológica não está isolada de seu contexto social, no qual elementos subjetivos como vergonha, constrangimento ou mesmo o tabu da cegueira aprisionam o indivíduo e o impedem de explorar as outras capacidades próprias da pessoa com deficiência visual. A libertação vem com o reconhecimento e a mudança para um novo modo, no qual se descobre as potencialidades de um estado em que os outros sentidos assumem o lugar da visão. A separação e a transição a que se referem ao pensar os rituais de passagem estudados por Gennep e Turner, apresentam-se aqui no “perigo” da doença, no risco que o cego supostamente expõe (para si e para aqueles com os quais convive) e a ameaça de um “contágio”, além da interpretação, ainda frequente, de que tornar público a cegueira é revelar uma fraqueza familiar. Somente com o início da reintegração do indivíduo junto ao reconhecimento de sua condição e mesmo de sua nova identidade é possível assumir uma posição social que se expande no sentido de um sujeito restabelecido, ainda cego, porém que passa a agir e a se perceber a partir do elemento identitário que representa a cegueira. Tornar-se cego é a transição para este “novo mundo” ao qual se referem muitos dos interlocutores: atravessar uma subjetividade limitante, a princípio, para as potencialidades além da visão.

Palavras-chave


deficiência visual; agência; subjetividade