Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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EDUCOMUNICAÇÃO: A CRISTALIZAÇÃO DA IMAGEM DA CRIANÇA INDÍGENA PELOS DISCURSOS DA MÍDIA JORNALÍSTICA
Wesley Souza Mendonça

Última alteração: 20-10-18

Resumo


Wesley Souza Mendonça

UFMT, mendoncaswesley@gmail.com

 

A imagem da criança indígena tem sido cristalizada no imaginário simbólico social por discursos midiáticos jornalísticos, entre outros, em grande medida universalizantes. As produções discursivas tendem a obliterar as diferentes infâncias indígenas ao disseminar, por vezes inspiradas em uma “benevolência”, um arquétipo de criança indígena dicotômico. Tal representação, além de pouco contribuir para o reconhecimento de sua humanidade, sedimentam a ideia de criança indígena em um modelo unívoco. No conceito antropológico de “transculturação”, em que a cultura está em constante mutação e interação entre os grupos humanos, podem ser inseridas as crianças indígenas, assim como todos da sociedade, já que também são impactadas pelas relações étnicas. Para subverter a lógica determinista, vertical e hierárquica que pode incidir na perpetuação da dominação cultural e seus desdobramentos pela assimetria entre indígenas e não indígenas, busca-se, de modo geral, identificar qual o tratamento da mídia jornalística é conferido às crianças indígenas e, de maneira específica, quais sentidos tais produções tem inferido para as construções simbólicas das infâncias indígenas, bem como categorizar quais contextos são visibilizadas ou invisibilizadas e como tem propagado ressonâncias nos diversos espectros sociais. Com apoio nos aportes teóricos dos estudos sobre mídia, especificamente, os pressupostos de John B. Thompson sobre os conceitos de ideologia e midiação da cultura contemporânea, além da Sociologia e a Nova Antropologia da Criança e, ainda, a educomunicação como proposição de uma pedagogia crítica da mídia, a presente pesquisa terá como corpus de análise vídeo reportagens sobre crianças indígenas, produzidas por emissoras que compõem a Rede Globo de Televisão, veiculadas em canal aberto e disponibilizadas no portal de notícias: g1.com.br. A metodologia empregada é a Hermenêutica de Profundidade (HP) proposta por Thompson, estruturada em três fases: análise sócio-histórica, análise formal ou discursiva e, por fim, interpretação ou reinterpretação. As análises preliminares das 299 vídeo reportagens localizadas, que tratam de temas ligados às crianças indígenas, exibidas entre dezembro de 2012 a março de 2018, indicam um restrito espaço à elas na mídia e, quando aparecem mais frequentemente, nas peças analisadas, em situação de pobreza ou vulnerabilidade, remetendo a imagem de “carente”, bem como em situações que retratam a ausência de tecnologias necessárias para a vida moderna. Além disso, os discursos veiculados nas peças podem disseminar normatizações não indígenas, como, por exemplo, a proposta de educação escolar urbana. No conjunto das peças analisadas, a mídia ainda reverbera uma imagem superficial e folclorizada da criança indígena. Sendo assim, parece oportuno refletir sobre as construções simbólicas sobre a criança indígena produzidas e sustentadas pela mídia, posto que podem contribuir para a estigmatização das infâncias indígenas.

Palavras-chave: Mídia e infância. Criança indígena. Educação.


Palavras-chave


Mídia e infância. Criança indígena. Educação.

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