Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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Antonio Candido Inventado: O Lugar Social e Epistemológico do Crítico
Thales Biguinatti Carias

Última alteração: 22-11-18

Resumo


A vasta literatura crítica sobre Antonio Candido tem avançado na direção de compreender sua obra como uma espécie de indicativo de um fenômeno histórico mais amplo, qual seja: o da renovação dos parâmetros institucionais mediante o apelo técnico e acadêmico da então recente Universidade de São Paulo (USP) a partir da terceira década do século XX. Num destacado trabalho sobre a obra do crítico, Rodrigo Martins Ramassote elabora essa imagem de um agente da renovação histórica para compreender o empenho interpretativo na análise literária de Antonio Candido. Diante do problema do “viés sociologizante” da literatura em Antonio Candido, Ramassote destaca a unidade de um pensamento frutífero, segundo o qual os critérios técnicos e específicos da crítica literária seriam enriquecidos, e não “desviados”, pela interpretação sociológica. Apesar deste crédito, a obra de Ramassote acaba por deixar de enfocar um aspecto importante para a compreensão da obra crítica de Antonio Candido na sua totalidade: mais do que implementar o discurso técnico e científico segundo os recentes parâmetros uspianos, Candido é um sujeito que disputa as significações históricas do novo estado que tenta se conformar. Ao referendar a novidade institucional na ação de Antonio Candido, a escrita de Ramassote não se dá conta que é possível ler o próprio Candido como um agente que disputa o Estado; não tanto portador, mas construtor e idealizador de um projeto. Ramassote compra a ideia de que essa ruptura é progresso do campo autônomo e esquece de considerar que esse campo só se consolida, institucionalmente, porque exerce uma leitura integradora do povo nos parâmetros do Estado nacional, tal como as inúmeras investidas políticas e culturais do próprio governo Vargas em se sagrar como novo ente e implementador de um efetivo estado moderno no país, vide o episódio de queima das bandeiras regionais ou todo o afã entorno da autoproclamada Revolução de 1930. Para disputar isso na forma de um projeto coerente e sistemático, Candido formula, na junção do discurso crítico com o sociológico orientados por sua concepção ética, um objeto de estudos especificamente literário: tal objeto se delineia a partir dos problemas eleitos pela historiografia nacional como chaves para a compreensão das idiossincrasias da modernização brasileira. Neste sentido, tentamos reconduzir as questões de dentro do campo especificamente literário para uma historicidade mais ampla, que nos remete à formação de um discurso historiográfico que interpreta, compreende e disputa os sentidos de Brasil em jogo naquela primeira metade do século XX. A legitimidade desta historiografia possibilitou a formação, pela iniciativa de Antonio Candido, de um novo objeto de estudos, centrado nas questões literárias, mas conformando um problema que fazia parte (e muitas vezes tensionava) de um amplo projeto civilizacional.