Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Introdução ao estudo de Modelos Experimentais de Psicopatologia
Daniele Cristina Soares de Lima, Raphael Guilherme da Costa Alves, Rafael Bená de Araujo, Thiago Marques de Brito

Última alteração: 24-06-19

Resumo


A elaboração de modelos experimentais de psicopatologia caracteriza-se como um dispositivo de relevância  para o entendimento  acerca dos comportamentos e bases neurofisiológicas e neurofarmacológicas relacionadas ao conjunto de elementos que definem uma determinada psicopatologia. Nesse sentido, compreende-se que a noção de modelos experimentais de piscopatologias é composta, basicamente, por três elementos: a) uma pergunta, que geralmente está associada ao que se gostaria de investigar sobre uma determinada psicopatologia; b) o animal que será utilizado no estudo, sendo que a escolha do mesmo necessita ser amparada por uma garantia de que repertórios comportamentais, neuroanatomia e neurofisiologia associadas à dimensão da psicopatologia que se quer estudar estarão presentes; e, c) situação ou aparato que será apresentado ao animal, garantindo que os mesmos reúnam condições de evidenciar repertórios comportamentais e organização neuroanatomofisiológica também relacionados à dimensão da psicopatologia que se quer estudar.

Para a elaboração de qualquer modelo experimental relacionado ao estudo de uma psicopatologia exige-se um nível de satisfação de alguns critérios necessários à construção de um bom modelo, compreendendo que a concepção de um “bom modelo” é definida, de uma forma geral, pela capacidade que esse modelo possui de mimetizar condições para que se evidencie repertórios comportamentais, organização neuroanatomofisiológica e elaboração de novos constructos teóricos que permitam uma descrição e compreensão mais precisa dos principais determinantes das psicopatologias que acometem o ser humano.

De maneira geral, esses critérios poderiam ser divididos a partir de dois componentes: a) àqueles relacionados à elaboração prévia do modelo, ou seja, o conjunto de elementos que deveriam ser levados em consideração pelo experimentador durante a escolha da pergunta a ser investigada, do animal escolhido para os testes e da situação ou aparato no qual irá expor os animais, de forma a levar em consideração tudo àquilo que antecede a execução dos testes experimentais; b) componentes relacionados à aplicação ou execução do modelo, ou seja, o conjunto de critérios que devem ser atendidos na busca de um modelo experimental que simule condições e comportamentos com aproximações topográficas e funcionais à psicopatologia em estudo.

Dentre os componentes de elaboração prévia destacamos a necessidade de reunir o máximo de conhecimento acerca dos principais aspectos relacionados à ecologia comportamental (dimensões do ambiente natural que são relevantes para a espécie que será utilizada) e etologia (modo como o animal se comporta em ambiente natural) dos animais a serem utilizados no modelo experimental, os possíveis substratos neurofisiológicos e neuroquímicos relacionados aos comportamentos a serem explorados através do modelo, e a investigação dos conhecimentos teórico-práticos disponíveis na literatura, que se relacionem com a psicopatologia a ser estudada.

Com relação aos componentes associados à aplicação ou execução do modelo poderíamos destacar quatro critérios de validação que servem de base para a elaboração de qualquer bom modelo experimental de psicopatologia: 1) a validade preditiva, relacionada às respostas apresentadas pelos animais testados quando expostos a uma determinada droga, que nesse caso, deveriam implicar em um desempenho semelhante quando comparadas as respostas apresentadas pelos animais durantes os testes e a mudança nos sintomas de uma determinada psicopatologia quando observada na clínica; 2) a validade de face, que pressuporia que a alteração de determinadas condições ambientais, implicariam em comportamentos com funções necessariamente semelhantes, fossem eles apresentados pelo animal exposto à situação experimental, ou observado clinicamente; 3) o valor de constructo, associado à consolidação e/ou desenvolvimento de explicações teóricas para fenômeno em estudo, pautadas na utilização do modelo experimental proposto; 4) o valor de uso, relacionado à efetividade da utilização do modelo na explicação das características que definem a psicopatologia em estudo, permitindo, quando bem utilizado, extrapolações dos achados experimentais para situações observadas na clínica. O agrupamento de tais elementos listados anteriormente, somados ao contexto histórico-cultural (zeitgeist) e ao grau de conhecimento técnico de uma ciência em um dado momento histórico, contribuem para a constituição e consolidação de um modelo experimental de psicopatologia e podem servir como uma base sólida para o entendimento, teorização e tratamento de várias psicopatologias observadas na clínica.

Dessa maneira, esperamos ampliar a compreensão acerca das principais bases que fundamentam o estudo experimental das mais diversas psicopatologias, bem como, dos seus possíveis desdobramentos acerca da pesquisa de base e sua transposição na pesquisa aplicada e as diversas áreas de atuação da psicologia e áreas afins.

Palavras-Chave: Comportamento, Modelos Experimentais, Psicopatologia.

Sugere-se, se possível, a ampliação das horas previstas para o minicurso para 3 horas, considerando que no mesmo, para além de questões teóricas, serão trabalhadas atividades de cunho prático.