Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Plantão Psicológico: uma possibilidade de acolhimento à pessoa com experiência suicida
Felipe Rodrigues Alves, Ana Rafaela Pecora Calhao

Última alteração: 30-06-19

Resumo


Atualmente percebemos emergir com força total a temática do suicídio no contexto brasileiro, assim como os desdobramentos que esse tipo de morte acarreta em pessoas próximas à vítima e na sociedade como um todo. Afetados por essa realidade preocupante e dolorosa em que estamos imersos enquanto seres humanos e cidadãos decidimos por realizar uma pesquisa com o tema da experiência suicida dialogada com as compreensões teóricas da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), proposta de acolhimento aos fenômenos psicológicos desenvolvida pelo renomado psicólogo norte-americano Carl Ransom Rogers (1902-1987). Desse modo, estamos entendendo experiência suicida como ideações, planejamentos e tentativas suicidas, incluindo nessas últimas as automutilações. Salienta-se que a partir de uma busca realizada através de indexadores reconhecidos cientificamente, tais como PePSIC, SciELO, Periódico CAPES e BVS-Psi foi constatada uma carência de discussões teóricas envolvendo a experiência suicida e a ACP, a despeito da temática ser consideravelmente discutida dentro da Psicologia e em outros campos do saber. Inicialmente algumas inquietações nos atravessaram nessa busca de compreensão da pessoa em experiência suicida a partir da Abordagem Centrada na Pessoa, tais como: Se Rogers defende a presença de uma tendência natural ao crescimento e à saúde, denominada teoricamente de Tendência Atualizante, quais as explicações que podem ser dadas no caso de pessoas que escolhem tirar a própria vida, demonstrando dessa maneira, contrariamente aos ensinamentos do autor, uma disposição para atitudes autodestrutivas e para a morte? A partir de leituras e discussões sobre a ACP, e revisitando os textos do autor, identificamos que além dessa força interna que promove motivação à vida e à busca de autorrealização, Rogers também fala de forças antagônicas e sociais que atravessam a vida humana de maneira igualmente potente e influenciável. As inquietações de Rogers sobre a questão podem ser constatadas e presentificadas nas seguintes passagens: “Como uma pessoa pode estar lutando em direção a um objetivo, enquanto seu direcionamento orgânico, como um todo, está justamente em direção contrária?” – “Se há uma descrição razoável do funcionamento da consciência quando tudo corre bem, por que então o conflito se desenvolve em muitos de nós, a ponto de organicamente nos movermos em uma direção e a vida consciente em outra?” –. Pretendemos, dessa forma, compreender a pessoa em experiência suicida a partir de um Serviço de Plantão Psicológico Centrado na Pessoa, ofertado em uma Clínica-Escola da Universidade Federal de Mato Grosso (Campus Cuiabá). Como objetivos específicos intencionamos identificar possíveis semelhanças e idiossincrasias presentes no discurso dos participantes através dos encontros em Plantão. É importante ressaltar que o Plantão Psicológico, embasado pelos princípios e fundamentos da ACP, tem se apresentado como uma modalidade de atendimento clínico adequada e eficaz no acolhimento à urgência, independente da magnitude desta última. Vale mencionar que essa pesquisa teve Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa – Humanidades da UFMT em 29 de abril de 2019, através do CAAE 08295719.7.0000.5690 e Parecer 3.291.330. Até o presente momento 31 pessoas foram atendidas no Plantão, com um total de 37 atendimentos, contabilizando os retornos espontâneos. Do total de pessoas atendidas, 8 concordaram com o registro da sessão em áudio e apresentaram experiência suicida recente, e 19 pessoas, embora tenham concordado com a gravação da sessão, abordaram vivências diferenciadas, com distanciamento de questões de cunho autodestrutivo. Há previsão para que os Plantões continuem sendo ofertados por esse plantonista até final de Junho do respectivo ano, ampliando as possibilidades, assim, de contato com pessoas que possam estar experienciando no aqui e agora da relação psicológica ideações, planejamentos ou tentativas de suicídio. Destaca-se que como metodologia de processamento e coleta dos dados será utilizado o software Iramuteq, com leitura aprofundada e centrada realizada a posteriori.

Palavras-Chave: Abordagem Centrada na Pessoa, Experiência Suicida, Plantão Psicológico, Tendência Atualizante.

 

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