Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Mulheres em cargos de comando: uma análise da literatura nacional sobre o fenômeno “teto de vidro”
Rose Angela Vieira Passos Bueno, Kariny Bernardino da Silva, Alessandro Vinicius de Paula, Rita Eliana Masaro

Última alteração: 27-09-19

Resumo


O debate sobre as relações de gênero no contexto organizacional tem possibilitado avanços na diminuição das desigualdades entre mulheres e homens no mundo do trabalho. No entanto, as conquistas obtidas pelas mulheres - brancas, jovens e de escolaridade média - nos contextos organizacionais, especificamente, em cargos de comando e/ou tomada de decisão, ainda precisam de atenção das políticas públicas e de alguns setores acadêmicos. A literatura sobre o tema indica que o fenômeno, descrito na década de 1980, como “Teto de vidro” explicaria as barreiras sutis, imperceptíveis e transparentes que influenciam as oportunidades de crescimento na carreira ao gênero feminino, revelando processos que impedem ou dificultam a progressão profissional aos níveis hierárquicos mais elevados nas organizações. Denominado mundialmente como “Glass ceiling” e, atualmente, fenômeno cunhado de “labirinto organizacional”, revelou a existência de um afunilamento hierárquico, onde as mulheres estão em menor proporção conforme aumento de comando nas organizações (Ethos,2010). Ampliando a compreensão sobre o fenômeno, o presente estudo realizou revisão crítica da literatura nacional, no período de 2008 até 2018 onde buscou-se identificar as publicações com texto completo disponível na internet utilizando as palavras-chave “gênero”, “trabalho” e “teto de vidro”. Empregou-se como fontes de pesquisa as bases eletrônicas Biblioteca Virtual em Saúde (BVSalud), Scientific Electronic Library Online (Scielo), Índice da Literatura Científica e Técnica da América Latina e Caribe (Lilacs), Portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia (Pepsic) e Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD), e adicionalmente, o portal de periódicos da Fundação Getúlio Vargas (FGV) foi acrescentado às bases de pesquisa por sua importância na divulgação e debate dos temas gerenciais. No período analisado, percebeu-se um baixo volume nas produções nacionais envolvendo o fenômeno Teto de vidro, sendo encontrados preliminarmente 30 trabalhos completos sem aplicar o crivo dos descritores escolhidos. Ao recortar o tema, com os descritores escolhidos, restaram 14 trabalhos completos. Os artigos analisados tratavam das seguintes temáticas: percepção de gestores no efeito teto de vidro (n=1); barreiras (n=4); oportunidades, existência do fenômeno (n=2); trajetórias e estratégias de superação (n=1); relações de poder (n=2); impacto trazido pela mulher em cargo de chefia (n=1); interações sexistas e raciais interferem no fenômeno teto de vidro (n=1). A análise da bibliografia selecionada também indicou que os autores dos artigos, em geral, trataram de um mesmo assunto por vieses diferentes, no entanto, sem explorar ou aprofundar sobre o fenômeno teto de vidro, seus impactos, ou tão pouco, apontar formas de prevenção. Como principal convergência entre os artigos analisados, houve concordância que o tema, trabalho e gênero, ainda deve ser discutido e pesquisado para avançarmos em prevenção e promoção de políticas de igualdade entre os gêneros no campo organizacional brasileiro. Considerando o período entre 2008 a 2018, a maior parte dos artigos foram publicados entre os anos de 2012 a 2014 e  Mato Grosso apresentou apenas uma produção encontrada. Esses dados indicaram a pertinência de mais estudos, especialmente em Mato Grosso, já que é o segundo estado brasileiro com menor participação feminina de acordo com informações da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) divulgada pelo Ministério do Trabalho no ano de 2016. Ainda é necessário ampliar as discussões e provocar a disseminação de ideias e práticas de gestão que promovam a igualdade de oportunidades sem diferenciação de gêneros. É imprescindível que investiguemos os obstáculos que dificultam o acesso das mulheres aos cargos gerenciais e formas de superar os Tetos de vidro constituídos nas estruturas organizacionais vigentes. Nesta revisão de literatura foi possível compreender que o fenômeno também é frequente em diferentes países e convoca-nos a refletir que o novo cenário de transformação social é globalizado e requer novos papéis tornando-se necessário revisitar perspectivas sobre identidade sexual revendo a produção e manutenção dos discursos de gênero que dão sustentação a essas novas identidades. No Brasil, a mulher ainda sofre restrições para acesso profissional, condições desiguais de trabalho e remuneração além de um conjunto de barreiras reais e simbólicas que as impedem de ascender profissionalmente.



Palavras-chave: trabalho e gênero, teto de vidro, gestão de pessoas.


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