Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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ESCUTA PSICANALÍTICA NA DEFENSORIA PÚBLICA: CAMINHOS E POSSIBILIDADES
Daniely Cristina Santos Souza, Silas Borges Monteiro

Última alteração: 01-07-19

Resumo


Alguns aspectos compõem a escuta psicanalítica do profissional psicólogo numa instituição jurídica, como a Defensoria Pública. Das possíveis elucidações, convocamos para essa discussão as contribuições acerca da escuta psicanalítica propostas por Marion Minerbo: a escuta psicanalítica compõe-se por peculiaridades, difere-se do que se tem costume cotidianamente. Quando o psicanalista comunica ao outro o que foi escutado, geralmente são representações de uma identidade que até então não se tinha acesso, abrindo possibilidades de outras formas de agir, pensar e sentir. Neste sentido, cabe ao psicanalista o papel de prestar atenção nos conteúdos secundários de uma fala. Quando se coloca em evidência os movimentos secundários de um discurso, este pode vir a mobilizar associações livres que colocam em cena a lógica do inconsciente. Os elementos marginais e dissonantes que constituem a primazia da escuta psicanalítica têm a ver com o funcionamento primário do aparelho psíquico. Algumas representações podem ser deslocadas ou condensadas devido ao recalcamento que acontecem engendradas pelo conflito psíquico. Esses conteúdos marginais, secundários e dissonantes podem ser entendidos como representações do inconsciente. Objetiva-se nesse trabalho identificar o uso da escuta psicanalítica como instrumento de trabalho do psicólogo (a) nos espaços da Defensoria. Utilizou-se como método de trabalho a revisão bibliográfica por propiciar um panorama bastante contundente acerca do tema estudado. O caminho metodológico percorrido baseou-se na utilização de dois descritores: defensoria e psicologia. Utilizados na plataforma de dados científicos, conhecida como Biblioteca Virtual de Psicologia – Brasil (BVS-Psi Brasil). Deste levantamento, encontraram-se 11 publicações cujos trabalhos dos psicólogos (a) foram realizados na Defensoria Pública. Alguns dados foram possíveis de serem analisados: a escassez de publicações de trabalhos produzidos no Brasil, no que se refere à atuação do psicólogo (a) na Defensoria Pública. Dentre as 11 publicações, foi possível encontrar 1 artigo que utilizou o termo escuta psicanalítica para se referir ao manejo técnico utilizado por psicólogas da Defensoria Pública de Mato Grosso. A maior parte das publicações aconteceu entre os anos de 2013 a 2017, sinalizando que a inserção desses profissionais na Defensoria Pública é recente. Tornou-se possível identificar que as análises dos dados propostos nos trabalhos consideraram vários aspectos da realidade institucional, trazendo à luz discussões a partir de autores renomados na área, como Michel Foucault, Blegger e Guirado. Algumas abordagens da psicologia apareceram de forma explícita nas publicações, dentre elas, pode-se citar psicologia social, teoria Winnicotiana e teoria sistêmica. Já em outros trabalhos, a abordagem psicanalítica apareceu de forma implícita pelo uso dos termos escuta psicanalítica e transferência. O termo escuta clínica foi utilizado em alguns trabalhos para referir-se à forma com que o psicólogo escuta as narrativas, vivências, conflitos, sofrimentos e a realidade simbólica de uma pessoa. A partir das perspectivas apresentadas, fruto da revisão bibliográfica, tornou-se possível articular que as produções a respeito do trabalho do psicólogo nas Defensorias possuem diversas abordagens teórico-psicológicas e conversam, em sua maioria, com análises dos aspectos institucionais. O trabalho dos psicólogos nas Defensorias ainda é relativamente recente e são poucas as instituições que possuem psicólogos no seu quadro de funcionários. Observou-se que o uso do termo escuta psicanalítica ocorreu em um artigo sobre a atuação de estagiários de psicologia e psicólogas na Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso, em que se possibilitou a promoção e circulação da palavra nos atendimentos que eram realizados na instituição. As pontuações e intervenções psicanalíticas possuem como horizonte a compreensão interna do sujeito sobre a situação em que ele se encontra e pode ocasionar mudanças na forma como se relaciona com o mundo externo e consigo. Os efeitos que podem se produzir na oferta de uma escuta atenta, acolhedora e livre de julgamentos, favorece a produção de associações livres, que num diálogo com o psicanalista pode vir a produzir efeitos de significação, posicionando o usuário/assistido num lugar subjetivo mais elaborado e desvestido dos movimentos sintomáticos que antes eram fruto de aprisionamento. Mediante a escassez de produções na área, torna-se possível convocar psicólogos que atuam em instituições jurídicas, como a Defensoria, a produzirem trabalhos e compartilharem vivências profissionais com intuito de fazer com que a palavra circule nos espaços institucionais, propiciando melhores formas de acolhimento e atendimento às demandas dos usuários/assistidos nas instituições jurídicas.

Palavras-chave: Defensoria, Psicologia, Escuta psicanalítica