Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Reduced Morningness-Eveningness Questionnaire (RMEQ): Estrutura fatorial, consistência interna e relações com saúde mental e personalidade
Ana Julia Candida Ferreira, Renan Pereira Monteiro

Última alteração: 08-07-19

Resumo


A cronobiologia objetiva entender as variações no ritmo biológico, sendo que indivíduos apresentam diferentes cronótipos. Alguns respondem de formas distintas a cada hora do dia. Especificamente, existem quatro classificações (matutinos, vespertinos, notívanos e intermediários), mas as pesquisas, em geral, concentram-se em dois tipos: matutinos e vespertinos. Os primeiros correspondem a aproximadamente 10% da população, sendo pessoas que tendem a dormir cedo, sendo mais produtivo durante a manhã. Já os vespertinos, que também correspondem a aproximadamente 10% da população, apresentam o padrão oposto, dormindo e acordando mais tarde, tendo um ápice de rendimento durante a tarde e início da noite. A propósito, uma série de estudos tem verificado que tal ciclo circadiano se relaciona a uma série de variáveis. Noturnos tendem a ter um desgaste na saúde mental (Antypa et al., 2016), são mais viciados em internet (Randler, Horzum, & Vollmer, 2014), priorizam mais valores individualistas (Vollmer & Randler, 2012), além de serem mais extrovertidos e instáveis emocionalmente (Pereira, Melo, Santos, Galdino, & Andrade, 2018). Apesar de ser uma diferença individual importante, são escassos os estudos brasileiros sobre cronótipo. Nesta direção, buscamos contribuir com a literatura brasileira sobre o tema, explorando os parâmetros psicométricos de uma medida curta para quantificar o cronótipo (Reduced Morningness-Eveningness Questionnaire; Adan & Almirall, 1991), além de conhecer em que medida e direção esta variável se relaciona com insônia, saúde mental e características gerais de personalidade. Para atender os objetivos do presente estudo participaram 332 pessoas, com idades entre 17 e 56 anos (M = 24,8; DP = 8,96; 73,3% mulheres). Verificamos a estrutura fatorial do Reduced Morningness-Eveningness Questionnaire (RMEQ). Inicialmente, observou-se que a matriz de correlações é adequada para o tratamento multivariado da análise fatorial (KMO = 0,78 e o teste de esfericidade de Bartlett, χ² = 404,78, p < 0,001). Em seguida, realizou-se uma Análise dos Componentes Principais, sendo que os critérios de Kaiser e Cattel sugeriram a extração de um único fator, com autovalor de 2,55 explicando 51% da variância. Os resultados apresentaram correlação positiva da matutinidade e dos construtos da personalidade como neuroticismo (CPearson: .233**), amabilidade (CPearson: .145**) e conscienciosidade (CPearson: -.127*). Ademais, fora encontrado correlação positiva entre vespertinidade e insônia (CPearson: -.403**), bem como com as variáveis de saúde mental, como depressão, ansiedade e estresse (CPearson: -.203**). Destarte, pode-se concluir que indivíduos matutinos apresentam maiores características de neuroticismo, amabilidade e conscienciosidade, enquanto os vespertinos apresentam altos níveis de insônia, estressa, depressão e ansiedade, que se dá, provavelmente, por conta da organização social e cultural em torno das manhãs. A partir das evidências prévias, o presente estudo aporta com a adaptação de uma medida breve, válida e precisa (Pasquali, 2003; Urbina, 2007) que quantifica as diferenças individuais relativas ao ciclo circadiano, além de fornecer dados que corroboram achados prévios da literatura, reforçando que pessoas noturnas apresentam uma saúde mental deteriorada (Antypa et al., 2016; Randler et al., 2014). Ademais, verificamos que os dados ora reportados vão na mesma direção de evidências metanalíticas que indicam o importante papel dos traços de personalidade para entender os ritmos biológicos (Tsaousis, 2010). Apesar dos resultados promissores, ainda há muito a se fazer, checando novas evidências a partir de Análise Fatorial Confirmatória, explorar os parâmetros individuais dos itens da RMEQ via Teoria de Resposta ao Item (TRI), bem como expandir os correlatos do cronótipo, conhecendo suas relações com outros modelos de personalidade, a exemplo do HEXACO e da Tríade Sombria e com outras variáveis que caracterizam o mal-estar psicológico (e.g., ideação suicida, uso e abuso de substâncias). Sendo assim, há uma premente necessidade de dar-se mais atenção aos achados da ciência da cronobiologia, tendo em vista os dados coletados na pesquisa que sublinham a importância do conhecimento desse construto para a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos, levando em conta, além das variáveis sociais, as variáveis fisiológicas.

Palavras-chave: Cronobiologia, psicometria, saúde mental, personalidade.

Referências

Adan A., & Almirall H. (1991). Horne & Östberg Morningness-Eveningness Questionnaire: a reduced scale. Personality and Individual Differences, 12, 241–253.

Antypa, N., Vogelzangs, N., Meesters, Y., Schoevers, R., & Penninx, B. W. (2016). Chronotype associations with depression and anxiety disorders in a large cohort study. Depression and Anxiety33, 75-83.

Randler, C., Horzum, M. B., & Vollmer, C. (2014). Internet addiction and its relationship to chronotype and personality in a Turkish university student sample. Social Science Computer Review32, 484-495.

Tsaousis, I. (2010). Circadian preferences and personality traits: A meta‐analysis. European Journal of Personality, 24, 356-373.

Vollmer, C., & Randler, C. (2012). Circadian preferences and personality values: Morning types prefer social values, evening types prefer individual values. Personality and Individual Differences52, 738-743.