Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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EFEITOS DA EXPOSIÇÃO PRECOCE AO GLIFOSATO NO COMPORTAMENTO DO TIPO CARDUME EM ZEBRAFISH (DANIO RERIO)
Raphael Guilherme da Costa Alves, Thiago Marques de Brito

Última alteração: 30-06-19

Resumo


Os defensivos agrícolas são produtos (físicos, químicos ou biológicos) cuja a ação se caracteriza por alterações na composição ambiental de espécies animais e vegetais, a sua utilização se dá principalmente por setores agrícolas em detrimento de processos como produção e armazenamento (BRASIL, 2002; LOPES, ALBUQUERQUE, 2018). Nos últimos anos o país vem progressivamente aumentando a utilização destes produtos, atingindo mais de 1,5 milhões de quilos de defensivos agrícolas comercializados em 2014, dado que representa um aumento de 147% em 7 anos (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2018). Com o intuito de controlar ervas daninhas em grandes e pequenas plantações ou também em centros urbanos, herbicidas podem ser administrados no ambiente em diferentes escalas. Dentre as mais utilizadas no mundo está o Glifosato, encontrado também em um composto de nome comercial Roundoup® (HOWE et al., 2004; ROY; CARNEIRO; OCHS, 2016). Inicialmente os desenvolvedores deste produto tinham por objetivo criar um princípio ativo que reagisse de forma danosa apenas em vegetações não desejadas, no entanto há alguns anos a literatura na área vem apontando para possíveis alterações em organismos de outras espécies, em níveis neurológicos, comportamentais e de desenvolvimento (HOWE et al., 2004; BRIDI, 2017; PEREIRA, 2018). Há alguns anos pesquisadores vêm desenvolvendo estudos epidemiológicos para investigar possíveis impactos na saúde causados pela exposição de humanos ao Glifosato (GILLEZEAU et al., 2019), pesquisas apontam a exposição ao Glifosato como possível responsável por transtornos neurológicos, porém, tais correlações ainda carecem de estudos mais aprofundados principalmente no que tange a seres humanos (SAMSEL; SENEFF, 2015; FARIA, 2015). Em relação a transtornos neurológicos, uma das formas mais utilizadas para a investigação, incluindo os impactos de substâncias químicas, são os modelos experimentais em psicopatologia (NUNES, HALAK, 2014). Autores (GOUVEIA, 1999; GOUVEIA; BRITO, 2015) afirmam que os modelos animais em psicopatologia têm como foco constituir parâmetros que permitam reproduzir um fenômeno específico, ou seja a ideia central está na possibilidade de manipulação experimental de características que representam similaridade com o fenômeno a ser estudado, por exemplo sintomas de determinados transtornos mentais. Os modelos animais são diversos e variam quanto aos sintomas do transtorno que visam “imitar”, essas variações são expressas em diferentes constructos, paradigmas, aparatos operacionais e espécies de animais utilizadas (GEYER; MARKOU, 2017). Atualmente é uma realidade nos laboratórios de pesquisa o uso de peixes para este propósito, com o argumento de que seu uso pode ser tão enriquecedor quanto o de roedores, possibilitando a investigação de elementos clássicos da neurociência, psicopatologia e fisiologia, além de exigir equipamentos e aparatos de baixo custo financeiro (GOUVEIA; MAXIMINO; BRITO, 2006). Uma espécie aquática amplamente utilizada para investigações em psicopatologia é o Zebrafish (Danio Rerio), por possuir características neuroendócrinas que estabelecem correlação com os parâmetros comportamentais, destacando seu potencial para estudos de desenvolvimento e interação social por se tratar de um típico peixe de cardume  (CACHAT et al., 2010; MILLER; GERLAI, 2011). O presente trabalho visa investigar o impacto da exposição em fase de larva ao Glifosato na interação social do Zebrafish. Se mostra relevante no que tange à ampliação de horizontes quanto ao conhecimento da toxicidade do Glifosato e seus efeitos na interação social, comportamento imprescindível para um desenvolvimento saudável tanto em humanos quanto em outras espécies. Para a realização do experimento será utilizado 120 peixes (n=120) divididos entre grupo de exposição à substância (n=60) e grupo controle (n=60), utilizando a metologia de Dwived et al. (2018) no que tange ao período de exposição de substância – 4 horas pós fertilização até 5 dias pós fertilização – e realizando, posteriormente, um teste comportamental para mensuração de cardumeamento (Shoaling Test) em aquário específico para tal. Os testes serão devidamente registrados em vídeo. Os resultados serão analisados a partir de testes paramétricos e/ou não paramétricos. Dados com mais de duas amostras serão tratados com a ANOVA ou testes de Friedman ou Kruskal-Wallis. Comparações entre dois grupos serão analisada através do teste t de Student ou Wilkoxon ou MannWhitney. Em todos os casos, o nível de significância será P < 0,05. Pretende-se com o estudo resultados robustos que permitam maior compreensão do fenômeno e uma contribuição para pesquisa básica e ciências da saúde.

Palavras-chave: Zebrafish; Glifosato; Interação social; Shoaling.


REFERÊNCIAS:

 

BRASIL. Decreto no 4.074, de 4 de janeiro de 2002. Regulamenta a Lei no 7.802, de 11 de julho de 1989, que dispõe sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e rotulagem, o transporte, o armazenamento, a comercialização, a propaganda comercial, a utilização, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e embalagens, o registro, a classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de agrotóxicos, seus componentes e afins, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 8 jan. 2002. Seção 1, p. 1. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2002/d4074.htm>. Acesso em: 6 jun. 2017.

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