Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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AS POSSIBILIDADES DO FAZER PSICANALÍTICO NO ÂMBITO HOSPITALAR
Bruna Cristina de Souza Silva, Sue Ellen Ferreira Modesto Rey de Figueiredo

Última alteração: 04-07-19

Resumo


Desde sua formulação em Freud e posteriormente com sua disseminação, a psicanálise conquistou diversas áreas, como as universidades, postos de saúde, clínicas privadas, hospitais, dentre outras esferas de atuação (PINHEIRO, 2006). Com isso Machado e Chatelard (2013) nos mostram o quão é importante ter domínio do seu conhecimento, e não deixar em nenhum momento que os empecilhos e obstáculos das novas áreas nos faça fugir dos parâmetros da psicanálise, devemos saber até onde se pode ou se consegue ir, sem abrir mão da ética teórica e da formação.
Telles (s.d.) nos faz pensar e questionar sobre a possível atuação do analista no ambiente hospitalar, ao retomar que Freud e Lacan iniciaram seus estudos sobre a teoria psicanalítica em hospitais, com isso nos traz a indagação sobre a articulação da psicanálise neste âmbito.
Moretto (2002) nos faz ver a partir da visão de Lacan que a Psicanálise ultrapassa qualquer fronteira, independentemente de o paciente estar em um consultório mobiliado adequadamente ou em um leito de hospital, o importante é ver que o inconsciente se encontra no que o sujeito fala, pois o que garante o fazer de uma psicanálise é o manejo da transferência, os fundamentos éticos dos procedimentos técnicos e o ‘desejo do analista’ de que a análise se de.
Ao adentrar o hospital, a psicanálise se viu aberta a novas culturas, novas subjetividades e passou a ter novos olhares. Outra consequência foi à ampla reflexão crítica, que fez com que a prática clínica fosse repensada, nos levando a olhar a psicanálise fora do conforto da clínica e nos fazendo vê-la com outros aspectos, em ambientes repletos de obstáculos e impasses (PINHEIRO, 2006).
Quando partimos dos pressupostos psicanalíticos compreendemos que o sujeito é efeito de significantes (LEMOS, 2011), com isso olhamos para a vivência hospitalar, com todos seus efeitos de desestruturação e conseguimos enxergar a ruptura entre o sujeito e seu ancoramento significante, e diante da falta que lhe foi imposta, o sujeito se depara com a angústia (OLIVEIRA; RODRIGUES, 2014). E é nesse lugar de restituição da cadeia significante do sujeito que se insere o analista. Neste ambiente de urgência o analista precisará reintroduzir o sujeito em sua cadeia significante (MOURA, 2000).
Mas ainda assim, podemos questionar: se a prática do psicanalista é a do inconsciente, o qual temos acesso primário pela fala, como atuar na dimensão do ato e suas consequências em um ambiente de urgência?
Partindo disso compreende-se que o analista, ao escutar o chamado de urgência vai articular a pressa exigida pela situação, ao tempo do sujeito que precisará devir. O mesmo terá uma escuta habilitada e intervenções diretivas, intervenções essas necessárias em um ambiente de urgência, e através de sua ação, produzir um sujeito, pois o analista apontará para a posição na qual o sujeito emergirá dos significantes. O trabalho do analista é o de possibilitar o caminho da destituição à reinstituição da pessoa na posição (MOURA, 2000). No ambiente hospitalar o analista vai privilegiar o tempo de compreender, se diferenciando da análise que privilegia o tempo de concluir.
Machado e Chatelard (2013) ao se referir ao direito de todos em ter acesso à psicanálise, afirmam que trancafiar a psicanálise em ambientes privados é dar mostras de uma timidez intelectual injustificada, avesso ao livre debate de ideias. Dessa forma, não há razão para privar uma população de seu direito de ser escutado em sua singularidade na busca de alívio para seu sofrimento psíquico. Ou seja, independentemente de ser no âmbito hospitalar, o doente que recorre à instituição pelo problema orgânico e não psíquico, a princípio, tem o direito a escuta tanto quanto o sujeito que busca a clínica psicanalítica.

Palavras-chave: psicanálise no hospital; escuta psicanalítica.



BIBLIOGRAFIA:
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