Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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A patologização e medicalização da existência: Os excessos na contemporaneidade.
Bruna Cristina de Souza Silva, Sue Ellen Ferreira Modesto Rey de Figueiredo

Última alteração: 08-07-19

Resumo


Há muito, temos visto os abusos cometidos pela psiquiatria e pela indústria farmacêutica. Uma alarmante ocorrência de indivíduos prejudicados por diagnósticos equivocados e medicalização em excesso, em resposta a manifestações emocionais, afetivas e comportamentais que fazem parte da existência e subjetividade humana (FRANCES, 2016).
Diante dos excessos cometidos pelo saber psiquiátrico na promoção e estabelecimento indiscriminados de diagnósticos à toda sorte de manifestação da subjetividade, assim como, o movimento de medicalização excessiva das últimas décadas. Diante disso, os casos de entorpecimento por drogas ilícitas e lícitas, por ansiolíticos ou indutores do sono, por exemplo, mostram bem que as tentativas de se evitar a dor a todo custo não as impedem de estarem presentes, agravando-as sobremaneira ao deixar seus determinantes intocáveis, resultando com a volta delas, de alguma forma, cobrando seu preço de alguma outra maneira, seja pelo preço da impotência, da alienação ou do dissipar da vontade de viver (KAMERS, 2013).
Superdosagens de analgésicos que acabam por ocultar o ritmo e a qualidade de vida que são responsáveis pelas dores e sofrimentos, também, sobrecarregam o fígado e outros órgãos que processam todas as doses altíssimas de medicamentos que ingerimos como se fossem pílulas de milagres que não podem nos fazer mal (ZANELLA, et al., 2016).
A medicalização da vida tem uma função de entorpecimento niilista do indivíduo, que encontra na ideologia da patologização uma defesa legitimada social, coletiva e pseudocientificamente pela indústria médica, com o apoio das mídias, da publicidade e propaganda, e diversos outros instrumentos de controle social. Tal legitimação social ampara a defesa de cada ser, quando convida o indivíduo a não olhar para dentro de si mesmo, para suas questões afetivas e emocionais, as quais se encontram na origem de muitos de seus sintomas e expressões de vida (MARTINS, 2004).
É importante ressaltar que a crítica à medicalização ou a certas práticas biomédicas não deve ser generalizada a todas as práticas da biomedicina em geral. Não faz sentido desprezar os resultados que a medicina e a terapia medicamentosa alcançam em salvamentos de vida. Não se trata de atacar a promoção de saúde, se trata de criticar a medicalização demasiada dos fenômenos implicados no simples fato de viver (MARTINS, 2007).
Pensando a partir de Friedrich Nietzsche, justamente pelo fato de evitar a morte, a dor, controlar riscos de morbidade e mortalidade e boa parte das doenças, ou seja, pelo fato de ser bem-sucedida por vezes, é que se constrói uma imagem mitificada – imagem essa validada pelos agentes que lucram com ela - como se a medicina e a medicalização fossem absolutamente capazes de evitar todas as dores, toda sorte de doença e toda possibilidade de morte, como se pudessem corrigir a existência (NIETZSCHE, 1998).
A problemática do campo biomédico não está em poder, de fato, sanar os danos referentes a saúde das pessoas, mas em produzir efeitos iatrogênicos a partir do momento em que aspira não somente a reparação e sim uma “cura total” de todo o mal-estar da sociedade. Como tal “cura total” não existe, a ideologia de medicalização se torna hipocrisia, pois a vida imaculada se faz impossível, dessa forma, depondo contra a vida e não a favor dela (MARTINS, 2007).
Portanto, diante das questões supracitadas, destaca-se a necessidade dos profissionais da saúde, aqui em particular, a psicologia, não perder de vista a singularidade dos sujeitos em meio a esse cenário caótico, aprendendo a ouvir suas experiências, identificações, desejos, angustias, necessidades e sua história para além dos sintomas passiveis de diagnósticos e medicalizações, buscando sempre a complexidade dos elementos que envolvem o existir. Ao invés de enquadrá-los em narrativas patologizantes legitimadas pelo discurso médico-psiquiátrico (GESSER, 2013).

Palavras-chave: medicalização; psicopatologização da subjetividade; excessos da contemporaneidade.


BIBLIOGRAFIA

FRANCES, Allen. Voltando ao normal. Rio de Janeiro: Versal Editores. 1° Edição. 2016.

KAMERS, Michele. A fabricação da loucura na infância: psiquiatrização do discurso e medicalização da criança. São Paulo: Estilos da clínica., v. 18, n. 1, 2013, pp. 153-165. Disponível em:< http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71282013000100010.

MARTINS, André. O biopoder a medicalização da vida: novas reflexões. In: Comissão Regional de Direitos Humanos. Direitos humanos? O que temos haver com isso?. Rio de Janeiro: Cartilha do Conselho Regional de Psicologia, 2007.      Disponível em:<http://www.abrasme.org.br/arquivo/download?ID_ARQUIVO=3717>.


NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia. São Paulo: Companhia das letras, 1998. Disponível em:< http://www.verlaine.pro.br/nascimento/nascimentodatragedia.pdf>.

ZANELLA, M.; LUZ, H. H. V.; BENETTI, I. C.; JUNIOR, J. P. Medicalização e saúde mental: estratégias alternativas. Revista portuguesa de enfermagem de saúde mental, nº 15, 2016. Disponível em:< http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1647-21602016000100008&lng=pt&nrm=i>.