Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Desenvolvimento de pensamento crítico em estudantes universitários: uma revisão
Paula Fernanda Martins Garcia, Julia Zanetti Rocca

Última alteração: 24-06-19

Resumo


Enquanto instituição incumbida de promover o conhecimento e formar profissionais, a Universidade tem como objetivo proporcionar uma educação científica aos estudantes e auxiliar no desenvolvimento de seu pensamento crítico. Entretanto, nota-se que, por vezes, estudantes universitários apresentam resultados insatisfatórios quando submetidos a estudos que visam testar sua capacidade de pensamento crítico e ceticismo (Lee, 2002; Kallery, 2001; Kane, et. al. 2010; Losh & Nzekwe, 2010; Impey, et. al. 2011; Sugarman, et. al. 2011; Tseng, et. al. 2013; Wilson, 2018). Tais resultados indicam a necessidade de rever os métodos de ensino que são utilizados para a promoção do pensamento crítico dos estudantes. Este trabalho tem por objetivo averiguar as pesquisas que têm sido produzidas com o intuito de verificar qual a forma mais eficaz de desenvolver a criticidade e ceticismo dos estudantes. Para isso, os artigos analisados foram coletados a partir do banco de dados “Eric” pela busca das palavras: “pseudoscience” e “critical thinking”, chegando, pelos critérios de inclusão, ao resultado de oito artigos. Os resultados encontrados nos artigos foram: Tenreiro-Vieira (1999) mostrou que após a realização de atividades de ensino sobre a definição de um problema científico, com formulação de possíveis soluções e discussão das razões que suportam as conclusões, o grupo experimental obteve melhores níveis de pensamento crítico em relação ao grupo controle que recebeu aulas habituais de manuais escolares de ciências.  Johnson e Pigliucci (2004) testaram alunos de Biologia e de Filosofia para analisar seus conhecimentos sobre fatos científicos, metodologia científica e crença em pseudociência. Os resultados demonstraram que os estudantes de Biologia apresentavam maior conhecimento sobre fatos científicos e metodologia científica. Entretanto, não houve nenhuma relação entre compreensão sobre fatos e métodos científicos e a crença em pseudociência. Kane, et. al. (2010) evidenciaram que alunos de Psicologia que participaram de um curso sobre ceticismo obtiveram significativas reduções de crenças paranormais quando comparados ao grupo controle. Porém, crenças judaico/cristãs e criacionistas se mantiveram nos dois grupos, não apresentando mudanças significativas após o curso de ceticismo. McLean e Miller (2010) também corroboraram que um curso de habilidades de pensamento crítico, dentro de um contexto específico de ciência e pseudociência, levou os estudantes a apresentarem melhores resultados em capacidades de raciocínio crítico quando comparados ao grupo controle que recebeu aulas de métodos de pesquisa e resoluções de questões teóricas tradicionais. Turgut (2011) ministrou um curso sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade, nesse curso os pesquisadores separaram os estudantes em dois grupos, sendo que um grupo defenderia a Astrologia como teoria científica enquanto o outro grupo alegaria que esta era pseudocientífica. A intervenção auxiliou para um significativo desenvolvimento em relação às crenças dos participantes sobre a maioria dos aspectos da pseudociência, principalmente nos aspectos empíricos, a natureza do método científico e a relação entre leis e teorias científicas.  Duncan e Arthurs (2012) ofertaram um curso sobre a natureza da ciência e raciocínio científico para alunos do curso de Astronomia. Os alunos que participaram tiveram melhores resultados em diferenciar ciência válida e pseudociência quando comparados ao grupo controle. Adam e Manson (2014) ministraram uma atividade sobre pseudociência para estudantes de Psicologia, e os resultados indicaram que os estudantes apresentaram melhoras nos índices de pensamento crítico. Em Wilson (2018) estudantes universitários participaram de um curso intitulado “ciência e pensamento crítico” que objetivava auxiliar na compreensão dos métodos científicos e da formação da opinião orientada por evidências, os resultados também demonstraram melhoria no pensamento crítico. Os resultados encontrados por essas pesquisas evidenciam que atividades voltadas a estudar a natureza da ciência, ceticismo e pseudociência têm apresentado melhoras significativas no pensamento crítico dos estudantes quando comparadas ao tradicional ensino vigente de ciência ofertado nos cursos de graduação universitária. Esses dados servem como interessante indicador de que a metodologia científica, estudada de forma tecnicista, apenas com passos metodológicos a serem seguidos e simples explanação dos fatos científicos, pode não propiciar os debates e questionamentos necessários para que os sujeitos desenvolvam pensamento crítico. Entretanto, é necessário que mais pesquisas sejam realizadas para que métodos de ensino efetivos sejam desenvolvidos e aprimorados.

 

Palavras-chave: Ensino, Pensamento Crítico, Universidade.

 

Referências:

Adam, A., & Manson, T. M. (2014). Using a pseudoscience activity to teach critical thinking. Teaching of Psychology, 41(2), 130-134.

 

Duncan, D. K. & Arthurs, L. (2012). Improving student attitudes about learning science and student scientific reasoning skills. Papers in the Earth and Atmospheric Sciences, 315.

 

Impey, C., Buxner, S., Antonellis, J., Johnson, E. & King, C. (2011). A twenty-year survey of science literacy among college undergraduates. Journal of College Science Teaching 40(4), 31-37.

 

Johnson, M. & pigliucci, M. (2004). Is knowledge of science associated with higher skepticism of pseudoscientific claims?  The American Biology Teacher, 66(8), 536-548.

 

Kallery, M. (2001). Early-years educators’ attitudes to science and pseudo-science: The case of astronomy and astrology. European Journal of Teacher Education, 24(3), 329-342.

 

Kane, M.J., Core, T.J., & Hunt, R.R. (2010). Bias versus bias: Harnessing hindsight to reveal paranormal belief change, beyond demand characteristics. Psychonomic Bulletin & Review, 17, 206-212.

 

Lee, P. S. (2002). Ciências naturais e pseudociências em confronto: uma forma prática de destacar a ciência como atividade crítica e diminuir a credulidade em estudantes do ensino médio. (Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina).

 

Losh, S. C., & Nzekwe, B. (2010). Creatures in the classroom: Preservice teacher beliefs about fantastic beasts, magic, extraterrestrials, evolution and creationism. Science & Education, 20(5-6), 473–489.

 

McLean, C. P. & Miller, N. A. (2010) Changes in critical thinking skills following a course on science and pseudoscience: A quasi-experimental study. Teaching of Psychology, 37(2), 85-90.

 

Sugarman, H., Impey, C., Buxner, S. & Antonellis, J. (2011). Astrology beliefs among undergraduate students. Astronomy education review, 10(1).

 

Tenreiro-Vieira, C. (1999). Produção e avaliação de actividades de aprendizagem de ciências para promover o pensamento crítico dos alunos. Revista Iberoamericana de Educación, 1-17.

 

Tseng ,Y., Tsai, C., Hsieh , P.,  Hung,  J. & Huang, T. (2013). The relationship between exposure to pseudoscientific television programmes and pseudoscientific beliefs among taiwanese university students. International Journal of Science Education, Part B: Communication and Public Engagement, 1-15.

 

Turgut, H. (2011). The context of demarcation in nature of science teaching: the case of astrology. Sci & Educ, 20, 491–515.

 

Wilson, J. A. (2018). Reducing pseudoscientific and paranormal beliefs in university students through a course in science and critical thinking. Science and Education, 27(1-2), 183210.