Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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A PSICANÁLISE NOS CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (CAPS)
André Elias Cruz Antunes, Vera Lúcia Blum

Última alteração: 30-06-19

Resumo


Este trabalho integra a pesquisa desenvolvida no Grupo de Pesquisa em Psicologia Clínica e Instituições da Linha de Pesquisa Processos Clínicos e Contextos Socioculturais do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso – PPGPsi UFMT e dirige-se a debater o lugar da Psicanálise nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Os CAPS resultam de um processo histórico no qual o movimento da Reforma Psiquiátrica tem participação relevante. Movimento que surgiu no Brasil em um contexto histórico conhecido como redemocratização. Principalmente a partir do final da década de 1970, em seus variados campos de luta, o movimento da Reforma Psiquiátrica passa a protagonizar e a construir a denúncia da violência dos manicômios, combatendo a mercantilização da loucura, da hegemonia de uma rede privada de assistência e a construção coletiva de uma crítica ao saber psiquiátrico e ao modelo hospitalocêntrico na assistência às pessoas com transtornos mentais (BRASIL, 2005). Carvalho et. al (2012,p. 522) definem os CAPS como "serviço comunitário e aberto do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo referência  para tratamento de pessoas em sofrimento psíquico". Segundo Leal e Antoni (2013), são a principal estratégia para modificação do modelo de saúde mental e garantia dos direitos dos usuários, por serem serviços comunitários, ambulatoriais e regionalizados que têm a função de articular a rede de saúde. O valor estratégico dos CAPS consiste em que o surgimento desses serviços demonstra a possibilidade de uma rede substitutiva ao Hospital Psiquiátrico, pois é função dos CAPS prestar atendimento em regime de atenção diária, evitando as internações; promover inserção social através de ações intersetoriais; regular a porta de entrada da rede de assistência em saúde mental e dar suporte à saúde mental na rede básica. Eles são, portanto, o núcleo de uma nova clínica, que produz autonomia e convida o usuário a se responsabilizar pela trajetória de seu tratamento (BRASIL, 2005). Portanto, os autores defendem que a importância estratégica dos CAPS está em seu papel de articulador da rede intersetorial nos cuidados aos sujeitos em sofrimento psíquico. Papel esse que se desenvolve no sentido de prestar atendimento ao usuário incentivando a sua autonomia, responsabilização e protagonismo de sua própria trajetória. Sendo psicólogos de orientação teórica psicanalítica e, sendo um dos autores integrante da equipe de um Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e outras drogas (CAPS AD), nos pusemos a refletir sobre que lugar pode ocupar a Psicanálise ou, mais propriamente dizendo, os psicanalistas nos CAPS. Há uma vasta produção teórica de psicanalistas nesse campo. Porém ainda cabe perguntar: que lugar somos chamados a ocupar? Mediante tais questionamentos chegamos à hipótese formulada por Teixeira (2011), que considera que a Psicanálise se viu convocada na medida em que, com a substituição do modelo hospitalar pelo cuidado em serviços abertos, passamos de uma experimentação controlada a uma experiência de atendimento cuja orientação somente pode ser concebida no momento em que a experiência se apresenta. Não poderia ser diferente, pois o próprio Freud (1996, p. 139) afirmou que “a diversidade das constelações psíquicas envolvidas, a plasticidade de todos os processos mentais e a riqueza dos fatores determinantes opõem-se a qualquer mecanização da técnica”. Esse método, no qual a orientação só pode ser concebida diante da experiência está informada por alguma teoria. Minerbo (2014) ao falar da teoria que informa a escuta analítica, considera que: “O psicanalista se interessa pelas formas de subjetividade e pelas formas de sofrimento psíquico que lhe são consubstanciais” (p. 25) e se debruça sobre essas formas de subjetividade e sobre essas formas de sofrimento através da escuta analítica, que é descentrada, que presta atenção aos “elementos secundários, marginais, dissonantes” (p. 44), que indicam a presença potencial do processo primário, a presença de outra lógica latente, evidenciando pensamentos até então inacessíveis. O trabalho de pensar tais pensamentos é o que possibilitaria a ampliação da rede representacional capaz de ligar e dar sentido e significado a isso que acontece. A Psicanálise, ao apontar para as diferentes formas de, subjetivação e aos sofrimentos que lhes são consubstanciais, abre espaço para que se possa conceber o que há de singular naquele que sofre, com isso, pode servir aos interesses dessa nova clínica que estimula a autonomia e protagonismo do sujeito em relação à sua própria história.

 

Palavras-chave: Psicanálise, Centros de Atenção Psicossocial, Reforma Psiquiátrica

 

REFERENCIAS

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Reforma Psiquiátrica e política de Saúde Mental no Brasil. Brasília, 2005. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/Relatorio15_anos_Caracas.pdf. Acesso em: 30 de outubro de 2017.

CARVALHO, Laura Graças Padilha de; MOREIRA, Mayrene Dias de Sousa; RÉZIO, Larissa de Almeida; TEIXEIRA, Neuma ZamarianoFanaia. A construção de um Projeto Terapêutico Singular com usuário e família: potencialidades e limitações. O Mundo da Saúde, São Paulo, 2012, v. 36, p. 521-525.

FREUD, Sigmund. O Caso Shreber, Artigos sobre a Técnica e outros trabalhos (1911-1913). Volume XII. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 1996.

LEAL, Bruna Molina; ANTONI, Clarissa de. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): estruturação, interdisciplinaridade e intersetorialidade. Aletheia, p. 87-101, jan-abr, 2013

MINERBO, Marion. Neurose e Não-Neurose. 2ª ed. São Paulo, Ed. Casa do psicólogo, 2014.

TEIXEIRA, Antônio M.R. Singularidade subjetiva e metodologia clínica. CliniCAPS, Vol 5, nº 13, 2011. Disponível em < https://www.clinicaps.com.br/clinicaps_pdf/Rev_13/Padronizado%20Antonio%20Teixeira.pdf>. acessos em 13 jun 2019.