Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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O teatro como mediador no trabalho de prevenção ao abuso sexual infantil
AMAILSON SANDRO DE BARROS, Kamilla Clausen da Silva, Júlia Maria Florentino da Mota, Victória Oliveira Santos Barbosa, Isabella Moimaz Ferraz

Última alteração: 19-06-19

Resumo


O abuso sexual infantil é uma violência na realidade da vida cotidiana de muitas crianças e famílias. Estima-se que 80% dos casos de abuso sexual infantil ocorrem em ambiente doméstico e são praticados por algum familiar ou amigo próximo da família dessas crianças (ARAUJO, 2002). Envolto em mitos e tabus, o abuso sexual sofrido por crianças é mantido muitas vezes em segredo, não sendo denunciados pela vítima e pela família, ou mesmo notificados pelos profissionais diante de situações de suspeita ou de confirmação desse tipo de violência. O silêncio acaba se tornando um fator que dificulta a proteção e a garantia dos direitos da infância, indo na contramão do enfrentamento dessa violência. Nesse sentido, romper com o silêncio sobre o abuso sexual infantil deve ser preocupação constante das políticas públicas e dos profissionais que atuam diretamente com crianças, famílias e comunidade, pois implica postura ético-profissional e política no que diz respeito à proteção destes públicos. Entre as possibilidades de atuação dos profissionais no enfrentamento e superação dessa questão, o trabalho de prevenção torna-se fundamental e urgente. Compreende-se que a prevenção ao abuso sexual deve ser considerada como uma atividade constante nos serviços de educação, saúde, assistência social, esportes e de cultura destinados a infância, englobando famílias e comunidade. A prevenção do fenômeno do abuso sexual é aqui entendida como uma práxis criativa (MONTERO, 2006) e libertária (FREIRE, 2013), capaz de encorajar a revelação dessa violência, de proporcionar a troca de conhecimentos sobre esse tema, de desenvolver o pensamento crítico-reflexivo, de possibilitar o diálogo transformador, além de fortalecer o cuidado e a proteção. Uma ação ético-política com potencial revolucionário, se assentada no processo de desideologização e de desnaturalização das situações opressoras (MARTÍN-BARÓ, 2017), e no entendimento das condições concretas e históricas em que tais situações se fundamentam. Trata-se de promover, também, novas formas de sociabilidade e convivência familiar e comunitária, pautadas em valores de solidariedade e de responsabilidade social (FREITAS, 2014; MARTÍN-BARÓ, 2017; MONTERO, 2006). Nessa perspectiva, a Psicologia Social Comunitária (FREITAS, 2014) a partir de seu compromisso com a mudança e a transformação social (LANE, 2017) fundamenta o trabalho aqui relatado. Portanto, este trabalho relata a experiência de uma atividade de prevenção ao abuso sexual infantil, a partir de uma peça de teatro intitulada “Chapeuzinho Cor-de-Rosa”, que resultou da adaptação do livro “Chapeuzinho Cor-De-Rosa e a Astúcia do Lobo Mau’, de autoria de Cláudia Bonete (2018). Trata-se de um projeto de extensão da Universidade Federal de Mato Grosso realizado por estudantes do curso de Psicologia, sob orientação de um docente psicólogo. O referido projeto está relacionado ao programa de extensão “Núcleo de Estudos e Práticas em Psicologia Social Comunitária” (NUPSCO). A peça teatral foi ensaiada pelos estudantes, e é encenada em diversos espaços comunitários do Município de Cuiabá, como os Centros de Referência na Assistência Social (CRAS) e Organizações da Sociedade Civil, além de escolas e creches. O projeto busca prevenir o abuso sexual infantil, promover um espaço lúdico-reflexivo, possibilitar o diálogo crítico e criativo sobre sexualidade, sensibilizar o público em relação a problemática psicossocial do abuso sexual, fortalecer o processo de denúncia e promover a troca de conhecimentos e saberes sobre a temática da peça teatral. O enredo da história trabalha a desmistificação do abuso sexual e sua a dinâmica, diferenciando também para o público infantil, possíveis toques de carinho e toques abusivos nas relações de amizade e afetivas entre as pessoas. Ao final da encenação é realizada uma roda de conversa com as crianças. A realização dessa roda é adotada como estratégia para  possibilitar um espaço de diálogo reflexivo e participativo sobre o tema, promovendo,  um trabalho de prevenção à violência e promoção de saúde mental.

Palavras-chave:  abuso sexual infantil, prevenção, teatro.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARAUJO, M. de F. Violência e abuso sexual na família. Psicologia em estudo, p. 3-11, 2002.

 

BONETE, C. Chapeuzinho Cor-de-Rosa e a astúcia do Lobo Mau. 2. Ed. Dourados: Biblio Editora, 2018.

 

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17ª. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

 

FREITAS, M. F. Q. Psicologia Social Comunitária como politização da vida cotidiana: desafios à prática em comunidade. Psicologia Comunitária: contribuições teóricas, encontros e experiências, p. 65-85, 2014.

 

LANE, S. T. M. O que é psicologia social. Brasiliense, 2017.

 

Martín-Baró, I. Crítica e libertação na psicologia: estudos psicossociais, (F. Lacerda Júnior, trad.), Petrópolis, RJ: Vozes, 2017

 

Montero, M. Hacer para transformar: El método en la Psicología Comunitaria. Buenos Aires, Argentina: Paidós, 2006.