Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Contação de histórias infantis como estratégia psicossocial de prevenção ao abuso sexual contra crianças
AMAILSON SANDRO DE BARROS, Claudenilde Lopes dos Santos, Gabriel William Lopes, Melissa Hung Martins

Última alteração: 19-06-19

Resumo


É sabido que o fenômeno da violência contra crianças envolve uma série de fatores histórico-culturais, sociais e afetivos que revelam aspectos de uma sociedade opressiva e centrada no poder dos adultos sobre os corpos infantis, sem considerar a autonomia da criança, que passa a ser tratada como objeto. Em muitos casos, as situações de violência de pais contra filhos são mantidas em silêncio pelas famílias e até mesmo pelas crianças vitimizadas. A naturalização da violência praticada e sofrida é uma constante na vida de muitas famílias e comunidades. Sendo necessário e urgente trabalhos de prevenção como forma de superar e romper com esse silêncio imposto. A partir desta contextualização, o presente trabalho visa apresentar uma experiência de estágio básico em contextos comunitários realizada em um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), no ano de 2017, adotando a contação de história enquanto uma estratégia psicoeducativa lúdica na prevenção do abuso sexual infantil. Este estágio integra o conjunto de disciplinas práticas do curso de Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso, e a atividade executada articulou-se às ações do Núcleo de Estudos e Práticas em Psicologia Social Comunitária (NUPSCO). O aporte teórico que conduziu as atividades realizadas com as crianças pautou-se nos conhecimentos da Psicologia Social Comunitária Latino-americana (FREITAS, 2014) e da Psicologia Histórico-Cultural (VIGOTSKI, 2014). Metodologicamente, foi adotada as premissas da observação participante para realizar o processo de familiarização com o local de estágio e com as crianças que frequentavam o Centro de Referência de Assistência Social naquele momento. Após esse processo inicial realizou-se a oficina de contação de histórias com crianças na faixa etária de quatro a oito anos. A participação das crianças não foi obrigatória, participaram apenas aquelas que manifestaram interesse pela atividade. A oficina teve duração de uma hora e trinta minutos. A escolha pela contação de histórias ocorreu em virtude do potencial das narrativas em proporcionar a construção de sentidos e a atribuição de novos significados às vivências das crianças (MARRA, 2016). Ela também considerou o fato de que as narrativas oportunizam a abertura de um espaço para uma conversação criativa sobre temas que poderiam não surgir em outras possibilidades de encontros no cotidiano. Nesse sentido, verificou-se que a contação de história pode abrir margem para a emergência de conteúdos contra normativos e de novas narrativas ainda não compartilhadas pelas crianças, que as mantêm em segredo, como as histórias que envolvem situações de abuso sexual e outras violências. Para a Psicologia Social Comunitária e a Psicologia Histórico-Cultural, a contação de histórias e o diálogo reflexivo sobre os seus conteúdos é uma estratégia que pode contribuir para que as crianças falem sobre o assunto, pois as narrativas despertam afetos, revelam emoções, expressam ideologias, desmistificam valores e possibilitam que novas perspectivas sejam construídas e compartilhadas. Por esse prisma, é uma estratégia para a se trabalhar também a politização da vida cotidiana das crianças e da comunidade, apostando no processo de mudança e de transformação de relações abusivas para relações de cuidado e proteção. A oficina foi mediada pelo livro Pipo e Fifi: ensinando proteção contra violência sexual, da autora Caroline Arcari (2013). As oficinas tiveram como finalidade o processo de sensibilização e conscientização das crianças para a compreensão e identificação da dinâmica do abuso sexual e suas consequências psicossociais. Foi trabalhado também as formas de proteção e os meios para realizar a denúncia, considerando os serviços da rede municipal de proteção e atendimento a pessoas em situação de violência. Foi dado destaque a função protetiva das escolas, Conselhos Tutelares, Centros de Referência de Assistência Social, entre outros equipamentos sociais disponíveis na comunidade. Ademais, buscou-se a partir desse trabalho fortalecer a equipe da instituição na promoção de outras atividades de prevenção, que possibilitasse múltiplas práticas discursivas e interações entre as crianças e os profissionais, de forma mais horizontalizadas e participativas.

 

Palavras-chave: contação de história, abuso sexual contra crianças, prevenção

 

Referências Bibliográficas

 

FREITAS, M.F.Q. Psicologia Social Comunitária como politização da vida cotidiana: desafios à prática em comunidades. In: Stella, C. (org). Psicologia Comunitária: contribuições teóricas, encontros e  experiências. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014, p.65-85.

 

MARRA, M.M. Conversas criativas e abuso sexual: uma proposta para o atendimento psicossocial. São Paulo: Ágora, 2016.

 

VIGOTSKI, L.S. Imaginação e criatividade na infância. Tradução João Pedro Fróis. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014.

 

ARCARI, C. Pipo e Fifi: Prevenção de violência sexual na infância. São Paulo, SP: All Print, 2013. Recuperado em http://www.pipoefifi.org.br/home.html