Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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AGROTÓXICOS E DOENÇAS RELACIONADAS
Verônica betsabá mattos, Hemilly vanessa Prado Queiroz, Fernanda barbosa siqueira, Wheverton Rhenan teixeira resende, Luiz emidio de miranda silva, Sue Ellen Ferreira Modesto Rey de Figueiredo

Última alteração: 05-07-19

Resumo


A agricultura moderna depende muito do uso de pesticidas, o que aumentou com sucesso a produtividade, mas levou a crescentes preocupações em relação ao meio ambiente e à saúde humana [1]. O presente estudo foi uma revisão integrativa de bibliografias, realizada com busca de artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais indexados no PubMed e SciElo. Um terço dos alimentos consumidos cotidianamente pelos brasileiros está contaminado pelos agrotóxicos, segundo os resultados realizado pelo Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) da Anvisa que analisou amostras coletadas em todos os 26 estados do Brasil [2]. O grande problema dos agrotóxicos é que existem três principais vias de absorção (dérmica, digestiva e respiratória), o que aumenta a área biológica de exposição a estes agentes químicos [3]. Os agrotóxicos reconhecidos cientificamente como danosos à saúde pública e ao meio ambiente, proibidos em diferentes países, continuam em circulação no Brasil [4]. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, dos 50 agrotóxicos mais utilizados nas lavouras de nosso país, 22 são proibidos na União Europeia, fazendo do Brasil o maior consumidor de agrotóxicos já banidos por outros países [2]. Vários estudos têm relacionado agrotóxicos com doenças, entre elas a doença de Parkinson que é uma doença degenerativa do sistema nervoso central, crônica e progressiva. É causada por uma diminuição intensa da produção de dopamina, que é um neurotransmissor, os pesticidas têm sido consistentemente investigados devido a sua capacidade de afetar alterações neurológicas no cérebro, levando a destruição de neurônios produtores de dopamina, podendo afetar a gravidade da doença de Parkinson[5]. Outra interferência dos agrotóxicos é no diabetes tipo 2, onde fatores de risco de estilo de vida tradicionais, como inatividade física, tabagismo e obesidade, não são suficientes para explicar completamente a atual epidemia de diabetes tipo 2, tentativas de identificar novos fatores de risco têm acumulado evidências sobre a contribuição dos agrotóxicos [6]. Muitos produtos químicos que foram identificados como desreguladores endócrinos são pesticidas. A desregulação endócrina pode resultar em distúrbios no sistema reprodutivo, como a modulação das concentrações hormonais, irregularidades do ciclo ovariano e comprometimento da fertilidade [7]. Vários estudos [7] [8] têm demonstrado relação da exposição dos agrotóxicos com câncer entre eles o câncer de pulmão, mieloma múltiplo, linfoma não-Hodgkin, câncer do ovário, câncer da próstata, cancro retal, cancro do testículo, cancro da pele [9] e câncer de mama [8]. Estima-se, para o Brasil, no biênio 2018-2019, a ocorrência de 600 mil casos novos de câncer, para cada ano. Nas mulheres, os cânceres de mama (29,5%), intestino (9,4%), colo do útero (8,1%), pulmão (6,2%) e tireoide (4,0%) figurarão entre os principais. A Região Centro-Oeste, apesar de semelhante, incorpora em seu perfil os cânceres do colo do útero e de estômago entre os mais incidentes. Estima-se que cerca de 80% a 90% de todos os cânceres sejam atribuídos a fatores ambientais, como a exposição a agrotóxicos que tem efeitos de longa duração como potencial carcinogênico [10]. A exposição a substâncias químicas (pesticidas) em regiões de média e alta produção agrícola tem sido identificada como potencial causador de câncer, já que a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC / OMS) classificou os agrotóxicos frequentemente usados em cultivos como potencialmente carcinogênicos [11]. Além disso, a exposição aguda ou crônica deixa marcas. As exposições agudas são caracterizadas por efeitos como irritação da pele e olhos, coceira, cólicas, vômitos, diarreias, espasmos, dificuldades respiratórias, convulsões e morte. Na exposição crônica, dentre os efeitos já relacionados incluem infertilidade, impotência, abortos, malformações e efeitos sobre o sistema imunológico [12]. Outros estudos relacionam agrotóxicos com doenças neurológicas, pois os agrotóxicos são facilmente absorvidos acumulando-se em tecidos ricos em lípidos tais como os encontrados no sistema nervoso apresentando comprometimento cognitivo e efeitos adversos no humor [13]. Com todos esses dados, estudos se fazem necessário para uma melhor avalição de como o Brasil deve se proceder quanto a proteção dos riscos relacionados a agrotóxicos. Como modelo, o Brasil deve seguir exemplo da União europeia, que é composta por 28 estados membros, possui atualmente as regulamentações mais abrangentes e protetoras para o uso de pesticidas proibindo os que são considerados agentes mutagénicos, cancerígenos, tóxicos para a reprodução ou desreguladores endócrinos [14].

Palavra-chave: Agrotóxicos, câncer e doenças

 

Referencias

1.1 Zhang, Jing; Wang, Jianhua; Zhou, Xiaoshi. Farm Machine Use and Pesticide Expenditure in Maize Production: Health and Environment Implications. Int. J. Environ. Res. Public Health 2019, 16, 1808

2. CARNEIRO Fernando Ferreira; RIGOTTO Raquel Maria; Augusto, Lia Giraldo da Silva; FRIEDRICH, Karen; BURIGO, André Campos. Dossiê ABRASCO. Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Rio de Janeiro: ABRASCO; 2012

3. Jobim Paulo Fernandes Costa, Nunes Luciana Neves, Giugliani Roberto, Cruz Ivana Beatrice Manica da. Existe uma associação entre mortalidade por câncer e uso de agrotóxicos?: Uma contribuição ao debate. Ciênc. saúde coletiva  [Internet]. 2010  Jan [cited  2019  June  13] ;  15( 1 ): 277-288. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141381232010000100033&lng=en.  http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000100033.

4. Araújo, Isabelle Maria Mendes de, & Oliveira, Ângelo Giuseppe Roncalli da Costa. (2017). AGRONEGÓCIO E AGROTÓXICOS: IMPACTOS À SAÚDE DOS TRABALHADORES AGRÍCOLAS NO NORDESTE BRASILEIRO. Trabalho, Educação e Saúde, 15(1), 117-129. Epub December 15, 2016.https://dx.doi.org/10.1590/1981-7746-sol00043

5. Ball N, Teo WP, Chandra S, Chapman J. Parkinson's Disease and the Environment. Front Neurol. 2019;10:218. Published 2019 Mar 19. doi:10.3389/fneur.2019.00218

6. Kathrin Wolf, Brenda W.C. Bongaerts, Alexandra Schneider, Cornelia Huth, Christa Meisinger, Annette Peters, Andrea Schneider, Jürgen Wittsiepe, Karl-Werner Schramm, Karin Halina Greiser, Saskia Hartwig, Alexander Kluttig, Wolfgang Rathmann,Persistent organic pollutants and the incidence of type 2 diabetes in the CARLA and KORA cohort studies, Environment International, Volume 129, 2019, Pages 221-228, ISSN 0160-4120. https://doi.org/10.1016/j.envint.2019.05.030.

7. PERES, Frederico; MOREIRA, Josino Costa. É veneno ou é remédio? Agrotóxicos, saúde e ambiente [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2003. 384 p. ISBN 85-7541-031-8

8. FENGA, Concettina. Occupational exposure and risk of breast cancer (Review). BIOMEDICAL REPORTS, v. 4, p. 282-292, 2016.

9. GANGEMI, Silvia; MIOZZI Edoardo; TEODORO, Michele; BRIGUGLIO, Giusi; LUCA, Annamaria de; ALIBRANDO, Carmela; POLITO, Irene; LIBRA, Massimo. Occupational exposure to pesticides as a possible risk factor for the development of chronic diseases in humans (Review). Mol Med Rep. 2016;14(5):4475-4488.

10. Ministério da Saúde (BR). Instituto Nacional do Câncer. Estimativa 2018 incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2018

11. PIGNATI, Wanderlei Antonio; LIMA, Francco Antonio Neri de Souza e; LARA, Stephanie Sommerfeld de; CORREA, Marcia Leopoldina Montanari; BARBOSA, Jackson Rogério; LEÃO, Luís Henrique da Costa et al . Spatial distribution of pesticide use in Brazil: a strategy for Health Surveillance. Ciênc. saúde coletiva  [Internet]. 2017. Oct [cited  2019  Jan  02] ;  22( 10 ): 3281-3293. Available from:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141381232017021003281&lng=en.  http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320172210.17742017

12. DUTRA, R. M. S.; SOUZA, M. M. O. DE. IMPACTOS NEGATIVOS DO USO DE AGROTÓXICOS À SAÚDE HUMANA. Revista Brasileira de Geografia Médica e da Saúde, v. 13, n. 24, p. 127 -140, 22 jun. 2017

13. Siegel M, Starks SE, Sanderson WT, Kamel F, Hoppin JA, Gerr F. Organic solvent exposure and depressive symptoms among licensed pesticide applicators in the Agricultural Health Study. Int Arch Occup Environ Health. 2017 Nov;90(8):849-857. doi: 10.1007/s00420-017-1245-8. Epub 2017 Jul 12. PubMed PMID: 28702848; PubMed Central PMCID: PMC5728379.

14 Donley, Nathan. The USA lags behind other agricultural nations in banning harmful pesticides, Environmental Health, 2019, Jun, 07, volume 18, number 1, pages 44, issn 1476-069X. https://doi.org/10.1186/s12940-019-0488-0.