Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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O potencial criativo frente aos conflitos psíquicos: o sujeito em expressividades
Bruna Fangueiro Pereira, Leonardo Pinto de Almeida

Última alteração: 03-07-19

Resumo


Se, por um lado, há a busca pela saúde mental em circunstâncias e em agentes externos ao próprio sujeito que sofre, por outro, há também o sujeito que, diante de sua angústia, coloca em movimento o que sente, utilizando-se do seu potencial criativo. No viver criativo, há o fortalecimento de que se está vivo, conforme Winnicott (2011). Ou ainda, de acordo com Deleuze (1997), o processo da criação, representado pela escrita é um empreendimento de saúde, uma vez que, o escritor não possui uma saúde de ferro, mas, pelo contrário, goza de uma frágil saúde irresistível. Isto, portanto, o leva a perceber coisas que seriam imperceptíveis, caso dotasse de uma saúde de ferro. Em continuidade a isso, o autor francês também traz conceitos como: a existência do caos antes da arte, sendo o artista, o primeiro a se assombrar com a própria criação, pois algo simplesmente lhe empurra a fazê-la. Tanto a arte, quanto a ciência e a filosofia, traçam planos sobre o caos, fazendo a linguagem borbulhar na tentativa de enfrentá-lo e dar conta do que emerge dele, através de conceitos, proposições e afectos, conforme Deleuze e Guatari (1992, apud Almeida e Gorlier, 2017). Dessa forma, pode-se compreender que a arte é uma composição a partir do caos, que possibilita as visões ou as sensações. Além disso, sabe-se que o processo de criação, em si, é suspensão e desvio da repetição. Dessa forma, torna-se possível questionar: estaria a arte e o processo criativo em íntima sintonia com os processos de elaboração e ressignificação que ocorrem em um processo analítico de um sujeito diante do caos e do sofrimento psíquico? Tendo-se em vista esse fenômeno da capacidade de criar e ainda, dos afetos, que atravessam o corpo e o arrastam para além de si mesmo, fazendo-o lançar-se e extravasar seus limites físicos, pode-se pensar sobre o efeito clínico que se presentifica e flui tanto em um processo, quanto no outro. Isto porque, o analisando, diante do próprio caos, é convidado pelo analista, a verbalizar, fazer a linguagem borbulhar, dando a vida ao processo de criar a partir de seu discurso. Assim, movimenta o saber depositado no Outro para a constituição de um novo saber, o saber que impera dentro de si. O sujeito em repetição sintomática é convidado a criar e construir um novo enredo para sua história e, consequentemente, também constrói novos significados sobre o porquê das situações que se repetem em sua vida. Tanto a literatura, a música, a poesia e a pintura, são movimentos de expressividade do sujeito e, por isso, a subjetividade se faz presente. Freud afirma em seu texto “Escritores criativos e devaneios” que, se ao menos pudéssemos descobrir em nós mesmos ou em nossos semelhantes uma atividade afim à criação literária, poderíamos ter esperança de obter as primeiras explicações do trabalho criador do escritor. E, isso, conforme Freud, na realidade é possível, pois, os próprios escritores criativos gostam de diminuir a distância entre a sua classe e o homem comum, assegurando-nos, com muita frequência, de que todos, no íntimo, somos poetas, e de que só com o último homem morrerá o último poeta. Propõe-se, portanto, executar este projeto em dois momentos: tratando-se de uma pesquisa de cunho qualitativo, utiliza-se da pesquisa bibliográfica, em um primeiro momento, para abordar a temática sobre o potencial criativo frente aos conflitos psíquicos, ou seja, a capacidade do sujeito de criar e, desse modo, ressignificar a própria realidade diante da angústia equiparando-se isso ao efeito clínico analítico, utilizando-se, para tanto, de autores como Freud, Lacan, Winnicott, Deleuze, Foucault, Blanchot, entre outros; e, em um segundo momento, utilizando da pesquisa-ação, com entrevistas não diretivas, constituídas por perguntas abertas a serem aplicadas, com artistas da cidade de Cuiabá, sobre os momentos em que sentem-se inspirados e motivados a produzir arte e os efeitos que incidem sobre si, após o processo da criação. Dessa forma, será possível verificar a amplitude e os efeitos clínicos dos processos criativos em diferentes âmbitos, para a aquisição de saúde nas experiências de ressignificação do sujeito diante do sofrimento psíquico.

Palavras-chave: processo; criativo; analítico; sofrimento.

REFERÊNCIAS:

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Editora 34, 1997.

DE ALMEIDA, Leonardo Pinto; GORLIER, Juan Carlos. Diálogos sobre personagens e acontecimento. Mnemosine, v. 13, n. 2, 2017.

FREUD, Sigmund. Escritores criativos e devaneios (1908). Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 9, 1996.

WINNICOTT, D. W. Tudo começa em casa (P. Sandler, Trad.). 5° ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.