Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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DIAGNÓSTICO DE TRANSTORNO ESPECTRO AUTISTA (TEA) E EXPOSIÇÃO A INSETICIDAS PIRETRÓIDES
Ariadine Ribeiro Leite, Sue Ellen Modesto Rey de Figueiredo, Isabella Rodrigues Porto, Claudia Moreira de Lima

Última alteração: 29-06-19

Resumo


Os piretróides são atualmente os pesticidas mais utilizados no ambiente doméstico, como uma das metodologias mais adotadas de controle ao aumento exponencial de doenças transmissíveis por vetores em áreas periurbanas ou urbanas (Abrasco, 2012). Como consequência da ampliação da disponibilidade, uso e amplo espectro de aplicabilidade dos piretróides, houve maior exposição da população em geral a esta classe de pesticidas as quais chegaram aos lares principalmente na forma de produtos domissanitários, termo utilizado para identificar os saneantes de venda livre destinados a uso domiciliar (Pignati; Calheiros; Lima, 2018).Estes compostos apresentam amplo espectro de atividade, ação rápida, eficiência em baixa dose. No entanto apesar das vantagens supracitadas pelos piretróides em relação a outros inseticidas, deve-se tomar precauções no seu uso, já que podem exercer nos vertebrados efeitos neurotóxicos e cardiotóxicos (Santos & Augusto, 2007).Os sinais e sintomas de intoxicação podem ocorrer em diversas formas. De forma aguda os piretróides podem agir como alérgenos respiratórios e da pele, provocando reações asmáticas e de dermatite de contato (European Food Safety Authority, 2013), além de provocar espirros, dor de cabeça, náuseas, descoordenação, tremores, convulsões, rubor e inchaço facial, sensação de ardor e comichão (WHO, 2005). Quanto aos efeitos crônicos, os autores Mostafalou e Abdollahi (2017) divulgaram estudos que revelaram que, em adultos, a exposição à piretróides foi associada ao risco aumentado de incidência da desordem do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)e autismo. Além disso, Viel e colaboradores (2015) concluíram que a exposição à piretróides afeta negativamente o desenvolvimento neurocognitivo de crianças.Assim, sugere-se que a exposição gestacional a pesticidas piretróides pode induzir a neurotoxicidade do desenvolvimento do feto, podendo ser uma das causas associadas a ocorrência do TEA. Poucos estudos abordam a relação entre TEA e inseticidas piretróides, entretanto o TEA tem uma etiopatogenia multifatorial resultante de uma interação muito complexa entre fatores genéticos e ambientais (Lyall,Schimidt,e Hertz-Picciotto, 2014). Neste sentido, a exposição de mulheres grávidas a estes pesticidas piretróides é especialmente preocupante, porque estas substâncias podem atravessar a barreira placentária e interferir no desenvolvimento hormonal e neurológico do feto, além de afetar o sistema imunológico e outras funções fisiológicas (Dewailly et al., 2014).Esta pesquisa busca descrever dados que levantem a hipótese de uma associação entre a exposição a piretróides antes da concepção e/ou durante o período gestacional com sugestiva contribuição para a ocorrência do TEA.Trata-se de um estudo transversal descritiva. A pesquisa foi realizada em dois municípios de Mato Grosso, sendo Cuiabá e Várzea Grande. A escolha das cidades se deu por conveniência, onde foram priorizados municípios que fossem próximos para melhor viabilização da pesquisa. Para coleta dos dados foi utilizado, dentre outros instrumentos, um questionário semiestruturado adaptado visando obter informação referente ao contato com o agrotóxico. Trata-se de questionário adaptado do estudo “Parenteral Exposure to Pesticides and Occurenceof Congenital Malformations: hospital-based case – control study”, com a inclusão de perguntas relacionadas ao TEA. De acordo com os resultados, foram entrevistadas 56 mães de crianças com diagnóstico de TEA. Dessas, 10 (17,86%) crianças eram do sexo feminino e 46 (82,14%) do sexo masculino. Quando questionadas a respeito da exposição aos vários tipos de veneno ao longo da vida foi relatado que 8 (14,28%) mães não tiveram contato enquanto que 48 (85,72%) tiveram contato de alguma forma. Portanto, pode-se levantar a hipótese de uma possível associação do contato direto ou indireto do uso de piretróides como fator de risco para desenvolvimento de doenças, uma vez que estudos experimentais e epidemiológicos identificaram a capacidade de alguns pesticidas provocarem um desequilíbrio no sistema endócrino, vindo a interferir no desenvolvimento do feto durante o período gestacional, ocasionando em problemas na gestação, dentre eles o transtorno do espectro autista (TEA) (Cremonese et. al, 2012). Sugere-se que a exposição a piretróides pode ser um fator de risco para o desenvolvimento do TEA, sendo necessário maior aprofundamento acerca da temática para uma validação e fundamentação completa. Estudos como estes são viáveis para a realidade atual, onde os resultados servirão de referência para novas pesquisas e o conhecimento necessário no que diz respeito ao uso de piretróides, a sua exposição durante a gestação e sua relação com TEA.

 

Palavras chaves: Transtorno Autístico,inseticidas, gravidez, diagnóstico diferencial.

 

Referências Bibliográficas

Associação Brasileira de Saúde Coletiva. (2012). Dossiê ABRASCO: Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Rio de Janeiro: ABRASCO, 88p.  https://www.abrasco.org.br/site/wp-content/uploads/2015/03/Dossie_Abrasco_01.pdf

Cremonese, C; Freire, C; Meyer, A; Koifman, S. (2012). Exposição a agrotóxicos e eventos adversos na gravidez no Sul do Brasil, 1996-2000. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(7):1263-1272. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102311X2012000700005&script=sci_abstract&tlng=pt

Dewailly, E.; Forde, M.; Robertson, L.; Kaddar, N.; Sidi, E. A. L.; Cote, S. et al. (2014). Evaluation of pyrethroid exposures in pregnant women from 10 Caribbean countries. EnvironmentInternational, v. 63, p. 201-206.

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Lyall K; Schmidt RJ; Hertz-Picciotto I. (2014) Maternal lifestyle and environmental risk factors for autism spectrum disorders. Int J Epidemiol.; 43: 443-64. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24518932.

Mostafalou, S.; Abdollahi, M. (2017). Pesticides: an update of human exposure and toxicity. Arch. Toxicol, v. 91,p. 549–599. https://reference.medscape.com/medline/abstract/27722929.

Pignati, W. A.; Calheiros, D. F.; Lima, Francco A. N. S. (2018). O modelo de (des)envolvimento agrícola em Mato Grosso e os impactos dos agrotóxicos na saúde ambiental e humana. In: ensaios sobre poluição e doenças no Brasil. ed. São Paulo: Outras expressões.

Santos, S. L.; Augusto, L. G. S. (2007). Modelo de controle de dengue, pontos e contrapontos. In: Augusto, L. G. S.; Carneiro, R. M.; Martins, P. H. (Org.). Abordagem ecossistêmica em saúde: ensaios para o controle do dengue. Recife: Universitária UFPE, p. 115–133.

Viel, J. F.; Warembourg, C.; Le maner-idrissi, G.; Lacroix, A.; Limon, G.; Rouget, F. et al. (2015). Pyrethroid insecticide exposure and cognitive developmental disabilities in children: the PELAGIE mother–child cohort. Environ. Int. v. 82, p. 69–75. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26057254.