Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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O que dizem as mulheres acometidas com o câncer a partir da significação de suas experiências?
Leihge Roselle Rondon Pereira, Ana Rafaela Pecora Calhao

Última alteração: 08-07-19

Resumo


Neste trabalho, procuramos apresentar as experiências e resultados obtidos a partir de uma pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso, cujo o objetivo foi de acessar e compreender as significações afetivas e emocionais que mulheres acometidas pelo câncer de mama fizeram sobre suas experiências durante o início do tratamento quimioterápico. O tema dessa pesquisa, o câncer de mama, foi escolhido por ser causador de impacto, sendo até hoje considerado uma das importantes causas de morte feminina por câncer no Brasil (INCA, 2017), e, apesar dos avanços biotecnológicos no tratamento, ainda gera angústias que ocasionam afetações emocionais e mudanças significativas na vida da paciente. Contudo, o tema do câncer de mama constitui-se, em nosso estudo, como importante atravessador da experiência humana, que abrange o nosso maior interesse de estudo. Assim, junto às mulheres que vivenciaram o câncer de mama, e que fizeram tratamento oncológico em uma clínica especializada em oncologia na cidade de Cuiabá-MT, realizamos um estudo de abordagem qualitativa, com procedimentos quali-quantitativo para o processamento dos dados, e construímos um estudo de natureza exploratório-descritiva. Fundamentamos nossa pesquisa pelos pressupostos teóricos da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), proposta por Carl Ransom Rogers (1902-1987), psicólogo norte-americano de grande prestígio no campo da Psicologia, dessa forma, consideramos a ACP na discussão teórica, na coleta dos dados, e nas análises dos dados. A coleta dos dados foi realizada no primeiro semestre de 2018, em uma clínica especializada em oncologia na cidade de Cuiabá-MT, a partir de entrevistas experienciais individuais, que foram gravadas, e realizadas com dez mulheres, com idades entre 35 e 53 anos. Tais entrevistas foram realizadas mediante a adoção de atitudes de consideração positiva incondicional, congruência e compreensão empática, fomentando um clima facilitador (ROGERS, 1992, 2014), que compôs uma estratégia metodológica para coletar os dados de pesquisa, já que a postura e atitudes da pesquisadora não foram diretivas, mantendo-se as atitudes requeridas em uma proposta psicoterápica da ACP. As entrevistas experienciais que haviam sido gravadas foram transcritas e formaram um corpus que foi processado pelo software IRAMUTEQ (CAMARGO; JUSTO, 2015), apresentando quatro Classes de Palavras, nomeadas por: Sistemas de apoio; Tratamento do câncer de mama; Afetações pelas relações interpessoais; e Afetações pelo tratamento do câncer de mama, e que foram representadas por meio de um dendograma, construído por frequência e khi2 dos vocábulos. Optamos aqui por aprofundar as análises nas duas últimas Classes, Afetações pelas relações interpessoais e Afetações pelo tratamento do câncer de mama, já que identificamos nessas duas classes referências diretas aos acentos afetivos e emocionais vivenciados pelas participantes. Esta decisão permitiu uma sofisticação metodológica ao estudo, retomamos ao contexto discursivo de cada palavra e extraímos os diferentes sentidos e significados delas; a compreensão que realizamos dos contextos das palavras foram apresentadas e avaliadas por juízes, que possuem conhecimento e formação acadêmica na ACP, assim, os entendimentos realizados foram incorporados ao estudo. Os resultados demonstraram que as participantes significam a importância dos sistemas de apoio diante das mudanças físicas e ambientais ocorridas devido ao tratamento; os efeitos colaterais nos quais o tratamento se consolida são percebidos como barreiras de superação para alcançar a cura da doença; as interações com as pessoas e as formas de olhar influenciam a forma como as pacientes pensam sobre si e da sua vida durante o tratamento; o registro das mudanças provocadas pelo tratamento, estão para além das marcas físicas, e são experiências que fomentam inseguranças nas participantes quanto à luta contra o câncer. Observamos que nas significações das mulheres acometidas pelo câncer de mama o fator das relações sociais apresenta expressiva relevância, em alguns momentos, como fonte de apoio, e, em outros, como fomentador de inseguranças. Com as experiências obtidas durante a pesquisa considera-se que a busca da compreensão das experiências por essas mulheres, ajudou no processo da consciência de si, também, consideramos que os resultados alcançados facilitam a proposição de espaços terapêuticos que promovam o relacionamento com o outro, reafirmamos, assim, a importância das relações de ajuda durante o processo de tratamento do câncer de mama, relações apontadas por Rogers como aquelas que, inicialmente, têm a intenção de promover saúde (ROGERS, 1993, 2014).

 

Palavras-chave: Psicologia Humanista, Abordagem Centrada na Pessoa, Entrevistas Experienciais, Câncer de Mama.

 

Referências Bibliográficas

CAMARGO, B. V.; JUSTO, A. M. Tutorial para uso do software IRAMUTEQ, 2015.

INCA, Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Estimativa 2018: incidência de câncer no Brasil / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Rio de Janeiro: INCA, 2017.

ROGERS, C. R. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983. (Publicado originalmente em 1980).

ROGERS, C. R. Terapia centrada no cliente. São Paulo: Martins Fontes, 1992. (Publicado originalmente em 1951).

ROGERS, C. R. Tornar-se Pessoa. (6. ed.). São Paulo: Martins Fontes, 2014. (Publicado originalmente em 1961).