Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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VERSÃO DE SENTIDO DO PROCESSO DE TORNAR-SE TERAPEUTA CENTRADO NA PESSOA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
Rosimar Santos Sobral, Pamela Thais Delmondes

Última alteração: 05-07-19

Resumo


Este trabalho relata a experiência de acadêmicos do décimo semestre do curso de Psicologia da Faculdade Cuiabá (FAUC) durante o estágio supervisionado Clínico 2, onde ofertaram atendimentos psicoterapêuticos no Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) Leonor de Carvalho Enes da FAUC. Os atendimentos foram realizados semanalmente durante o semestre letivo, entre os meses de março e junho do ano de 2019, e o referencial teórico utilizado como norteador das práticas foi o da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), concebida pelo psicólogo Carl Rogers, que partiu do pressuposto básico de que as pessoas possuem recursos que as encaminham para uma autorrealização e autorregulação. O que se pretende com este estudo é, a partir das experiências de atendimento, fazer uma reflexão acerca do processo de tornar-se terapeuta, e de como o papel das supervisões dos casos clínicos foram sendo percebidas nos alunos, e também, como percebemos ás  modificações em nossa postura e atuação enquanto psicólogos em formação. Para percorrer esse caminho, faz-se necessário dizer do sentimento percebido ao escolher a abordagem teórica, bem como dos sentimentos experienciados, por nós estagiários, durante os atendimentos. Para tal, partiu-se da versão de sentido, proposta por Amatuzzi. Ela foi definida como uma produção que trata da fala em sua forma mais autêntica, sendo pronunciada logo após um encontro vivido. Esta não deve ser uma fala qualquer, mas algo expressivo, que diga do sentido elaborado na experiência imediata da pessoa. Quando nós acadêmicos  escolhemos a ACP como referencial teórico, pela aparente  simplicidade da “técnica”, sentimos que teríamos em mãos uma ferramenta  insuficiente  para atender a demanda da clínica, ou que seria  de fácil manuseio, e nesse sentido, a prática da supervisão clínica facilitou a desmistificação dessas crenças  iniciais, colocando-nos  diante de nossas dificuldades, percebendo que para facilitar o processo de desenvolvimento dos nossos clientes,  é necessário que haja primeiro  uma mudança  pessoal. Modificação essa, que caminha em direção ao outro e retorna a nós mesmos, reinscrevendo sempre a necessidade de um novo olhar e sentir, já que, a cada dia somos únicos em nossas experiências. Tivemos a sensação de uma criança que adentra a sala de aula pela primeira vez, pois a   cada sessão sentimos um misto de ansiedade e insegurança. Uma pergunta feita todas as vezes que vivenciamos essa situação foi: Que lugar é esse que precisamos ocupar diante dos nossos clientes? Na tentativa de encontrar uma resposta e de diminuir a ansiedade diante dos atendimentos, tivemos contato com o artigo Versão de sentido na supervisão clínica centrada na pessoa: alteridade, presença e relação terapêutica”, dos autores Vieira, Emanuel Meireles et al (2018).  O que nos chamou a atenção foi o fato deste trabalho tratar  justamente  das dificuldades dos terapeutas iniciantes na supervisão, levando em conta   a necessidade dos supervisionados conseguirem trazer na supervisão o que lhe é significativo para descrever e apreciar a relação que estabelece com os clientes, numa narrativa que, ao invés de descrever exaustivamente os fatos, forneça aos que participam de seu compartilhamento um contato próximo ao sentido que ela fazem nossa experiência.   Com esta constatação, nos desprendemos da rigidez, voltando-nos para a liberdade de experienciar algo diferente nos atendimentos, atentando-nos integralmente ao cliente sem nos preocuparmos com a técnica, a aprovação da supervisora, ou com a tentativa de armazenamento das informações para relatórios.  Com essa nova perspectiva e maior abertura para vivenciar a experiência e o encontro com o cliente, nos permitimos acompanha-lo por onde quisesse caminhar, sem a preocupação em ofertar uma solução aos problemas. Foi possível perceber o quanto esse movimento foi significativo para a fluidez do atendimento e para o crescimento do cliente. Uma nova relação foi estabelecida. Sentimos que o tornar-se  terapeuta é um processo difícil, principalmente pelo fato de dar-nos conta que diz respeito a modificações internas ao terapeuta, a seu modo de se colocar no mundo e nas relações, não em função apenas da abordagem,  mas  porque a partir de então,  percebemos que a relação terapeuta x cliente, é uma relação dialética no processo terapêutico, que pode evoluir ou não, dependendo também de nossa disposição para mudança.  Notamos ainda a importância de nos desvencilhar da criação de expectativas por parte de nós terapeutas, e despir-nos do que já achávamos que sabíamos a respeito daquela relação.

Palavras-chaves: ACP, Estágio-clínico, Supervisão, Psicologia.

Referências

ROGERS, C. (2009). Tornar-se Pessoa. (6º Ed.) São Paulo: Martins Fontes. (Original publicado em 1961).

VIEIRA, Emanuel Meireles et al. Versão de sentido na supervisão clínica centrada na pessoa: alteridade, presença e relação terapêutica. Rev. Psicol. Saúde, Campo Grande, v. 10, n. 1, p. 63-76, abr.  2018.