Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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O uso de drogas recreativas e medicamentos psicoativos na população universitária da UFMT - Cuiabá
Karine Duarte Justino de Almeida, Isabel Scarlet Pereira Lima, Rilzeli Maria Gomes Leite, Luiz Fabrizio Stoppiglia

Última alteração: 01-07-19

Resumo


Segundo Cássia Rondina, Gorayeb e Botelho (2007), corroborados por Calheiros, Oliveira e Andretta (2006) álcool, cigarro e maconha podem aliviar sintomas depressivos e de ansiedade, substituindo ou se combinando aos medicamentos psiquiátricos. Mas também podem interferir no desenvolvimento dos transtornos mentais, incluindo alterar as opções de tratamento dos alunos (Cunha, 2006). Por isso, faz-se necessário pesquisar a relação entre tais drogas e seus efeitos na vida do acadêmico. Dessa forma, este trabalho teve por objetivo investigar se o consumo de drogas interfere no uso de medicamentos psiquiátricos entre universitários, além de levantar o perfil dos usuários dessas substâncias. Trata-se de um estudo transversal, realizado na UFMT/Cuiabá. A amostra foi composta por 465 estudantes de graduação entrevistados no 2º semestre de 2017. Foram elaboradas 20 questões fechadas para levantar sintomas depressivos, medicações, álcool, drogas, e a realização de tratamentos. Os formulários foram entregues aos participantes da pesquisa em sala de aula e eram respondidos de acordo com a disponibilidade dos estudantes. Com o resultado dessas questões foi realizada uma análise estatística descritiva e inferencial para Odds Ratios de associações entre sintomas de depressão, uso de medicamentos psiquiátricos e consumo de álcool/drogas entre os estudantes. Alcançamos alunos dos cursos de Educação Física, Enfermagem, Psicologia, Ciências Sociais, Geografia, Letras, Ciências da Computação, Engenharia Elétrica, Geologia e Sistemas de Informação.Os alunos foram majoritariamente solteiros, na faixa etária de até 24 anos, no início ou meio de curso (até o 6º semestre) e demonstraram-se satisfeitos com a opção do curso. Observamos que 15% dos estudantes usavam álcool, 6% cigarro, 6% maconha e 1% outras drogas. Quanto aos tratamentos de saúde mental, 3,6% utilizavam antidepressivos, 2,8% ansiolíticos e 8,8% faziam Psicoterapia.O uso de antidepressivos ocorreu principalmente na faixa de 17-24 anos (2,6-6,8x maior do que entre os alunos mais velhos, acima de 25 anos), por alunos que não moravam sozinhos (3,3x mais), até o 6º semestres da graduação (2x mais). Outras formas de alívio como cigarro, maconha, ansiolíticos ou Psicoterapia não se localizaram em qualquer variável sociodemográfica. As drogas eram usadas 2-5x mais por pessoas com os diversos sintomas de depressão, em especial tristeza (2,5-3,9x mais), alterações psicomotoras (2,5-3,7x mais) e fadiga (2,0-2,9x mais), além de 2-5x mais com o quadro nosográfico de Depressão Maior (3,0-4,5x mais) e de Ideação Suicida (2,9-3,3x mais). Não encontramos uma associação entre o uso de drogas e tentativas de suicídio. A Psicoterapia foi o tratamento de saúde mental mais utilizado pelos usuários de álcool, cigarro e maconha, o que pode sugerir uma população buscando ajuda e se automedicando. Praticamente não houve interação entre o uso de drogas e os tratamentos psiquiátricos, mas não encontramos usuários de antidepressivos fazendo uso de cigarro, sugerindo a substituição desse tratamento pela droga recreativa.As pessoas que usavam drogas, antidepressivos, ansiolíticos ou faziam psicoterapia tinham uma maior ocorrência de familiares com transtornos mentais; os fumantes possuíam mais problemas de saúde, além de uma maior ocorrência de transtornos mentais. Nem todos os usuários de antidepressivos e ansiolíticos faziam tratamento psicológico ou psiquiátrico, sugerindo a receituação por profissionais de saúde não-psiquiatras. Muitos alunos (mais de 60%) acreditavam que receberiam diagnóstico de depressão, apesar de poucos (cerca de 10%) fazerem algum tratamento quanto a isso. Os usuários de drogas, embora com maior ocorrência de sintomas e até o quadro nosográfico completo de Depressão, tinham mais raramente a crença de que teriam esse diagnóstico, em relação à amostra total. Isso pode sugerir que as drogas que esses usuários não caracterizavam seus sintomas como indicadores de uma psicopatologia. Nessa amostra, os usuários de drogas recorreram 2-3x mais ao tratamento com Psicoterapia, quando comparados aos que não usavam. Eles tinham 2x mais aparecimento de transtornos mentais em familiares, 2x mais aparecimento de problemas de saúde (nos fumantes) e 2x mais diagnósticos de transtornos mentais (em geral Depressão). Assim, observamos que as drogas provavelmente eram utilizadas para lidar com alguns sintomas depressivos, presentes principalmente nos alunos de início e meio de curso, sem nenhuma influência na ocorrência de tentativas de suicídio, e tais usuários geralmente procuravam por atendimento psicoterapêutico, mas não psiquiátrico. É possível que tais pessoas sejam consideradas um grupo de risco para ideação suicida, a ser abordada na Psicoterapia.

Palavras-chave: drogas, depressão, estudantes universitários


Referências:

De Cássia Rondina, R., Gorayeb, R., & Botelho, C. (2007). Características psicológicas associadas ao comportamento de fumar tabaco. J Bras Pneumol., 33(5), 592-601.

Calheiros, P. R. V., Oliveira, M. D. S., & Andretta, I, (2006). Comorbidades psiquiátricas no tabagismo. Aletheia, 23, 65-74.

Cunha, M. D. F. (2006). Adesão e não adesão ao tratamento psiquiátrico para depressão.