Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Análise do constructo violência doméstica: construção de instrumentos para avaliação explícita e implícita de identificação da violência doméstica.
Beatriz Moreira Silva, Julia Rocca, Virgínia Amorim

Última alteração: 05-07-19

Resumo


A violência doméstica deve ser entendida como qualquer ato baseado no gênero que resulte em morte, sofrimento físico, psicológico, sexual, dano moral ou patrimonial. Pesquisas revelam que 10% a 69% das mulheres em todo o mundo declaram ter sido agredidas fisicamente pelos seus parceiros em algum momento de suas vidas. Na América Latina, a violência doméstica acomete cerca de 25% a 50% da população feminina, só no Brasil; cerca de 23% das mulheres estão sujeitas à violência doméstica todos os dias, sendo que a cada 4 minutos uma mulher sofre algum tipo de violência em seu próprio lar. A violência contra a mulher no Brasil não encontra barreiras de idade, classe social, etnia ou religião, suas manifestações podem ser entendidas como produto cultural. Compreendendo também que nesse processo, o comportamento masculino violento deve ser caraterizado como um conjunto de estratégias sociais aprendidas. Segundo alguns autores, o patriarcado cria contextos sociais que reforçam percepções que o comportamento masculino é melhor que o feminino, estabelecendo e mantendo a desigualdade de gênero que fundamenta e dá suporte à violência contra a mulher. Partindo dessa perspectiva, podemos entender que a violência de gênero em algum momento da história foi institucionalizada e sua manutenção tem sido controlada por um conjunto de variáveis que condicionam a sua permanência. E para, modificá-las, é necessário que haja uma compreensão das instituições que de certa forma legitimam e alimentam a desigualdade entre gêneros. É necessário destacar que, desde o início, os estudos no campo da violência doméstica buscam descrever o fenômeno da violência física, deixando lacunas importantes sobre os outros tipos de violência.  Desse modo, o que se vê é que, apesar da definição ampla e abrangente, é comum que esse fenômeno seja associado exclusivamente às agressões físicas. No entanto, para compreendermos a violência contra a mulher, é essencial que esteja claro todas as formas de violências presentes, e também, o reconhecimento das normas e crenças sociais que sustentam esse tipo de prática. Pensando nisso, o presente projeto tem como objetivo, desenvolver instrumentos de avaliação explícita e implícita de identificação da violência doméstica em suas mais diversas manifestações, por meio de um estudo metodológico correlacional desenvolvida em 3 momentos. O primeiro consistirá no desenvolvimento dos instrumentos (Identificação de violência doméstica e atribuição de responsabilidade em conflitos de casais e o Implicit Relational Assessment Procedure – IRAP) pela pesquisadora, para posterior avaliação por três especialista da área de violência contra a mulher para eventuais correções. O segundo momento será a aplicação dos instrumentos em 75 mulheres divididas em três grupos, cada um contendo 25 mulheres, sendo: 25 mulheres vítimas de violência doméstica que estão atendimento psicológico, 25 mulheres vítimas de violência que não estão em atendimento psicológico e 25 mulheres que nunca reportaram violência doméstica. Enquanto o terceiro momento da pesquisa será a coleta de dados ampliada através do método bola de neve, no qual 200 participantes de ambos os sexos serão recrutados através de correio eletrônico e rede sociais, e responderão os instrumentos online, sem contato direto com a experimentadora. O instrumento de avaliação explícita consistirá em um conjunto de 6 vinhetas com casos de conflitos entre casais, no qual o participante será solicitado a responder dentro de uma escala de responsabilidade quem é responsável pela situação, e dentro de uma escala likert de 5 itens o quanto a situação a grave. Já o IRAP, consiste em um procedimento experimental desenvolvido por um software que se baseia no tempo de latência da apresentação de classes verbais equivalentes conflitantes pré-existentes em nossa comunidade verbal. Os dois instrumentos serão aplicados em conjunto com o Questionário de crenças relacionado à violência doméstica, desenvolvido por Willians, em 2010, que avalia as crenças sobre violência doméstica que interferem na compreensão dos indivíduos sobre esse fenômeno, tendo em vista validar e estimar a confiabilidade dos instrumentos, no que se refere à consistência interna e à estabilidade da medida. Sendo assim, o produto dessa pesquisa pode se transformar em importantes ferramentas, que podem ser utilizadas na área de violência doméstica, como nas delegacias de defesas na mulher, nas unidades de saúde e centros de referência de assistência social, favorecendo o rastreamento de como os indivíduos têm identificado ou não os outros tipos de violência doméstica.

 

Palavra-chave: Violência doméstica, Instrumentos de avaliação, Avaliação explicita, Avaliação implícita.

Referências

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