Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Determinantes sociais da saúde: reflexões sobre o trabalho multiprofissional com pessoas com câncer
Naysi Angélica de Oliveira, Carol Fernanda Rangel, Fernanda Cândido Magalhães

Última alteração: 25-06-19

Resumo


O presente resumo é fruto das reflexões geradas durante a prática clínica no Hospital do Câncer de Mato Grosso (HCAN), durante o exercício de atividades do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde do Adulto e Idoso com ênfase em atenção cardiovascular, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Durante o período de inserção no hospital foi levantada a necessidade de reflexão acerca dos determinantes sociais, econômicos e culturais dos usuários e usuárias com câncer, atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no HCAN, entendendo que seja discussão de extrema importância para a compreensão dos processos de saúde/doença. A reflexão acerca dos determinantes sociais, econômicos e culturais que interferem no processo de saúde-doença  e seus rebatimentos na construção de estratégias de enfrentamento, precisa levar em consideração a proposta da Reforma Sanitária, evidenciando a concepção ampliada de saúde. De acordo com Santos e Machado (2017), somente no ano 2000, o debate acerca dos determinantes sociais foi recuperado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), onde foi definida a meta “Saúde para Todos nos anos 2000”. Devemos frisar que as políticas neoliberais orquestradas pelo modo de produção capitalista, contrapõe-se aos princípios da Constituição Federal de 1988, ou seja, as transformações societárias acabam intensificando as expressões da questão social, fazendo com que na saúde ocorra a disputa entre o Projeto Sanitarista, calcado nos princípios da Constituição Federal e o Projeto Privatista, tratando saúde como mercadoria e geradora de lucros. Destarte, os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), não estão alheios à realidade social, e os determinantes que incidem cotidianamente nas relações sociais não devem ser vistos apenas como simples fatores e sim como processos sócio-históricos gestados na formação social brasileira. No que tange a dimensão dos determinantes sociais, atrelados ao desenvolvimento de neoplasias, o tabagismo, consumo de álcool, hábitos alimentares, ocupação e acesso a serviços de saúde são os principais fatores que modulam a influência de questões socioeconômicos na ocorrência de câncer, sendo que o surgimento desta enfermidade nos grupos de níveis socioeconômicos mais baixos é atravessado pela maior incidência de câncer em geral; diagnóstico tardio de neoplasias; dificuldades de acesso ao diagnóstico e tratamento adequados e pelo maior risco de óbito por tipos de câncer potencialmente curáveis (FILHO et al, 2008). No contexto mato-grossense, destacam-se também os trabalhadores rurais que se apresentam como grupo de risco, devido a exposição aos agrotóxicos e sua inserção em espaços de trabalho precarizado (MARCON et al, 2019). Ademais, os trabalhadores rurais, frequentemente estão inscritos em relações de trabalho informais, comprometendo o acesso aos benefícios previdenciários. Durante as visitas multiprofissionais, que conta com a presença de profissionais psicólogos e assistentes sociais, é observado que grande parte das internações são de pessoas provenientes de áreas rurais, com narrativas que apresentam grande culpabilização do Sistema Único de Saúde, pela demora no atendimento e dificuldades de acesso aos serviços de saúde curativos, como exames, consultas e cirurgias. Dentre os fatores atrelados aos determinantes sociais envolvidos no surgimento do câncer, apenas a utilização de tabaco e álcool aparece nos discursos dos usuários, geralmente associado a sentimentos de arrependimento e culpa, ao passo que a exposição a agentes cancerígenos associados ao trabalho e a utilização de agrotóxicos, condições socioeconômicas e prevenção primária não parecem ser reconhecidas como fatores que influenciam o processo de adoecimento. A percepção dos usuários sobre a influência de questões sociais e históricas no processo de adoecimento é relevante para o engajamento dos mesmos na construção de estratégias de enfrentamento contextualizadas e críticas. Dessa forma, é imprescindível que a equipe de saúde esteja atenta aos processos sócio-históricos que constituem os determinantes sociais da saúde, evitando que os mesmos sejam tratados como meros fatores de risco ou escolhas inadequadas de estilos de vida, para que seja possível acolher as histórias de vida e demandas trazidas pelos usuários de modo a reduzir o sofrimento e estimular a autonomia e participação das pessoas na utilização das políticas públicas de saúde, previdência e assistência social.




Palavras-chave: Determinantes Sociais da Saúde, Equipe Multiprofissional, Psicologia Hospitalar.


Referências


MARCON, Scheila et al. Perfil dos pacientes com câncer atendidos em um hospital público do oeste de Santa Catarina. Em 6º Congresso Internacional em Saúde. n. 6, 2019.


SANTOS, Tatiane Valeria Cardoso dos., MACHADO, Thiago de Oliveira. Transformações societárias, determinantes sociais da saúde e sua relação com o trabalho do/da assistente social.


WUNSCH FILHO, Victor et al. Perspectivas da investigação sobre determinantes sociais em câncer. Physis,  Rio de Janeiro ,  v. 18, n. 3, p. 427-450,  Sept.  2008.