Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Revisão bibliográfica: o uso da Teoria Histórico-cultural nas pesquisas em psicologia escolar e da educação
Ávio José Bernardelli, Julia Zanetti Rocca, Wagner Luiz Schmit

Última alteração: 27-06-19

Resumo


Com o passar das décadas a educação se transformou diversas vezes segundo uma relação dialética entre ciência e sociedade. No que tange ao campo científico, falar em educação desperta sobretudo interesse sobre a formação dos indivíduos. São nesses moldes que muitos teóricos do desenvolvimento passaram a influenciar a prática escolar. Entretanto, competem entre essas práticas muitas perspectivas, entre as quais algumas de posicionamento mais crítico. A Teoria Histórico-Cultural de Lev Vygotsky é um exemplo de teoria crítica de destaque no campo da educação. Seu uso, contudo, sugere algumas investigações, uma vez que esta é uma teoria complexa, de diversas aplicações e que demanda revisões sistemáticas, do problema ao método de investigação. Nesse sentido, o presente trabalho objetivou apreender o modo com que pesquisas recentes em Psicologia Escolar e da Educação se utilizam do referencial teórico da perspectiva Histórico-Cultural no tratamento de questões envolvendo a demanda por serviços de psicologia para alunos que apresentam dificuldades na aprendizagem. Os caminhos metodológicos tomados para este levantamento foram: 1. O uso da plataforma Google Acadêmico; 2. O emprego de palavras-chave centrais como Histórico-Cultural e Sócio-Histórica em relação com os termos Medicalização, Laudo, TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), TOD (Transtorno Opositivo-Desafiador), Autismo, Diagnóstico, Psicologia Escolar, Educação e Instituição; 3. Foram selecionados artigos que se relacionavam de maneira pertinente com o objetivo descrito; 4. Estipulou-se como data mínima de publicação para a escolha destes artigos o ano de 2012; 5. A busca por artigos se estendeu apenas até a página 20 para cada nova combinação de palavras-chave. Ao total foram selecionados 35 artigos. Apesar deste trabalho optar pelo termo histórico-cultural, a teoria foi referida também como sócio-histórica. Em combinação com estes primeiros termos, as palavras-chave que trouxeram resultados mais próximos do objetivo da revisão foram Educação e Medicalização. Evidenciou-se uma popularidade maior por estes termos mais amplos, ao passo que palavras mais específicas como Autismo e Diagnóstico não se mostraram como escopo das investigações apresentadas em psicologia-escolar, sendo mais presentes nas áreas da saúde. Em outro exemplo, o termo Laudo gerou resultados mais voltados para o âmbito jurídico, ainda que esta forma de documento também se apresenta na atividade da psicologia. Em relação ao conteúdo, os materiais se dividiram entre cinco revisões bibliográficas e trinta pesquisas com apresentação de dados resultantes de entrevistas, análises documentais, estudos de caso ou pesquisas-ação. De modo geral, as revisões contribuíram com discussões acerca do papel da escola diante das queixas escolares, suas consequências sobre o aluno e reflexões sobre o avanço indiscriminado da medicalização nestes casos. Em sentido semelhante, os dados apresentados pelo restante das pesquisas procuraram expor, a partir das realidades investigadas, as bases concretas das dificuldades nas crianças. A psicologia histórico-cultural nestes artigos é comumente referenciada a partir dos conceitos de Zona de Desenvolvimento Proximal e Funções Psicológicas Superiores como forma de explicitar sua dimensão dialética, se inserir nas questões de ensino-aprendizagem e assim fundamentar suas conclusões. Deste modo, a maioria dos textos introduziu o conjunto teórico para fazer apontamentos importantes sobre os modos de atuação da psicologia e pedagogia na escola, sobretudo no que diz respeito a falta de comprometimento da instituição com uma perspectiva psicossocial e o avanço da medicalização no tratamento das necessidades especiais. Os processos de ensino-aprendizagem, em especial quando atravessados por queixas, atraem facilmente discursos individualizantes e patologizantes. A teoria histórico-cultural possui uma objeção clara a isso, portanto vem sendo utilizada como uma forma de alerta para as instituições escolares. Conclui-se, contudo, que apesar de pertinentes, estes dados evidenciam a estagnação da educação no Brasil. No mesmo sentido, é possível dizer que não houve grandes avanços no desenvolvimento da teoria, dado que sua relação com a realidade ainda se manifesta por vieses mais críticos e menos interventivos.


Palavras-chave: Histórico-Cultural; Psicologia Escolar; Revisão Bibliográfica


Bibliografia


Vigotsky, L. S. O Problema e o Método de Investigação. In:______. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001. cap 1, p. 2-18.