Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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INTERSECCIONALIDADE E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO NA EXPERIÊNCIA DE PESSOAS VIVENDO COM HIV/AIDS
Marcelo Sousa SANTOS, Tamires Stefany de Araujo SILVA, Fernanda Cândido MAGALHÃES

Última alteração: 05-07-19

Resumo


O presente trabalho demarca a inserção da Psicologia no Programa de Residência Integrada Multiprofissional em Saúde do Adulto e do Idoso com ênfase em Atenção Cardiovascular (PRIMSCAV), do Hospital Universitário Júlio Muller (HUJM) e Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com atuação no Serviço de Assistência Especializada (SAE). Nesse sentido, pretende-se refletir sobre a experiência de populações em vulnerabilidade social marcados por raça, classe e/ou gênero, e sua relação com as estratégias desenvolvidas para enfrentamento ao estigma e preconceito vivenciados por pessoas com HIV/AIDS.  Ao analisar as produções científicas sobre os impactos psíquicos, estratégia e enfrentamento, nas vivências de pessoas com HIV/AIDS, verificamos que as populações enfrentam diversos estigmas, para além da sorologia positiva, sendo pessoas transpassadas por inúmeras formas de discriminação e preconceitos, marcadores sociais de vulnerabilidade que se encontram e fazem parte da sua identidade, concomitantemente ao HIV/AIDS, ou seja, existem pessoas que abarcam diversos marcadores em sua experiência, tais como gênero, vulnerabilidade socioeconômica, relações étnico raciais e sexualidades,  sofrendo seus múltiplos impactos diretamente, potencializando os determinantes e condicionantes da saúde (a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais) que podem produzir  iniquidade em saúde, impactando na promoção de saúde, prevenção de agravos e recuperação da saúde. Percebe-se que certos corpos (Mulheres, Mulheres negras, LGBT+, refugiados, pessoas em situação de rua, pessoas periféricas, entre outros grupos de vulnerabilidade socioeconômica) podem ser marcados por várias destas vivências e experiências, ocupando lugares potencialmente marginalizados, que por sua origem ou condição de vida apresentam marcadores indenitários que historicamente tem condicionado e determinado situações de exclusão e invisibilidade, expondo essas pessoas e coletivos a condições de vida restritas nas suas possibilidades de ter acesso ao direito integral à saúde. A literatura aponta que essa experiência se diferencia em populações que, de certa forma, podem estar menos propensas ou minimamente não estão expostas, como pode ser a vivência de pessoas ou populações que estão minimamente adequadas às expectativas da sociedade padrão capitalistas, patriarcal e hegemonicamente apoiadas na branquitude. Em uma perspectiva teórica, a Interseccionalidade pode possibilitar maior compreensão dos problemas sociais e das experiências singulares das pessoas que vivem com HIV/AIDS, evidenciando a singularidade dos processos de multiplicação de risco e subordinação diante de intersecções complexas entre dois ou mais marcadores sociais, como Classe e Raça e/ou Gênero, entre outros, que se entrecruzam e se potencializam. Dentro desta perspectiva, pretende-se oferecer espaço de escuta às pessoas atendidas pelo SAE, compreendendo a relevância acolhimento psicológico e de outros profissionais da saúde na compreensão dos processos de organização social, suas diferenças e desigualdades, as discriminações e possibilidades de ressignificação no processo de enfrentamento ao diagnóstico, momento que representa para muitos, sentimento de desolação e desamparo, sendo de grande relevância o acolhimento humanizado que proporcione um ambiente facilitador para compreensão do HIV/AIDS, e manifestação de seus sentimentos em relação a esta experiência, colaborando na desmistificação da doença e adesão ao tratamento dentro das possibilidades de condições reais que cada pessoa pode desenvolver. Estas reflexões orientam o presente trabalho e, com as intervenções dos Psicólogos residentes, pretende-se contribuir com a compreensão das estratégias de enfrentamento, sendo suporte para pessoas e populações que vivem à margem do acesso ao direito. Nesse sentido, pretende-se acolher as pessoas que ocupam um “não lugar” na sociedade, cabendo aos psicólogos, assim como aos demais profissionais da saúde, compreender a Interseccionalidade e suas relações no desenvolvimento das formas e estratégias de enfrentamento nas possibilidades e limites da experiência de conviver com HIV/AIDS, para que possamos intervir de forma eficaz nas especificidades de cada pessoa, diante do quadro clínico e de seu local de fala e origem, podendo olhar para a pessoa, para além do diagnóstico do HIV/AIDS. Para tanto é necessário compreender as implicações históricas, sociais, econômicas e políticas que envolvem a prática em saúde, elencando as potencialidades acerca de como cada pessoa vivencia a experiência, superando a dor e o sofrimento do preconceito, para viver e conviver com o HIV, atuando como profissionais de saúde comprometidos com os princípios doutrinários do Sistema Único de Saúde: Universalidade, Equidade e Integralidade.