Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

Tamanho da fonte: 
relação do ser humano com os outros animais – das consequências dos atos ao que sustenta esta ideologia
Fernanda Petrilli C Souza

Última alteração: 26-06-19

Resumo


O presente trabalho busca, a partir da psicologia social, estudar como se dão as relações do ser humano com os outros seres animais existentes no planeta, de tal forma, explicita ideologias vigentes que normalmente se mantém escondidas e busca explicar comportamentos sociais que regem a vida humana. Trata também das distorções que o capitalismo promoveu nos conceitos de sobrevivência e cadeia alimentar e dos abismos culturais que fazem com que essas relações não possam mais ser concebidas como naturais. Fala-se inicialmente sobre as diferentes formas de percepção que culturas, tempo e espaço tem de tais relações e faz-se uma analogia às imagens de ilusão de ótica, nas quais a percepção se alterna, possibilitando enxergar de maneiras diversas a mesma imagem. Há ainda um destaque para o conceito de esquemas, os quais são determinantes para nossa percepção e são responsáveis pelo modo como iremos interpretar as informações que recebemos. Busca-se entender os motivos que nos levam a agir da seguinte maneira: comedores e exploradores de algumas espécies e ainda assim amantes de outras delas. Explica-se que parte disso vem das relações que estabelecemos com estes animais durante nossas vidas, afinal toda essa carne para consumo está sendo produzida em sua maioria longe da população dos grandes centros, somente uma pequena parte dos consumidores de carne realmente já acompanharam a vida de um animal da indústria destinado ao consumo ou viram como é o cotidiano de um abatedouro ou barco de pesca, enquanto relações com algumas espécies consideradas domésticas são temas constantemente explorados pela mídia. Outro fato que este trabalho busca explicitar é  a alienação presente no pensamento que somente veganos e vegetarianos vivem sob o domínio de uma ideologia, quando na verdade o que Joy (2014) chamou de “carnismo” é sustentado justamente por uma ideologia dominante vigente. Faz-se importante ressaltar que o termo “ideologia” aqui utilizado está de acordo com algumas das definições trazidas por Guareschi (2012), das quais uma é a contribuição baconiana sobre a teoria na qual quatro classes de ídolos dificultam a aproximação do ser humano da verdade; outra, é o critério trazido por Thompson (1995) para classificar um fenômeno como ideológico apenas se este serve em circunstâncias específicas para estabelecer e sustentar relações de dominação. Portanto, dentro dessa ideologia carnista, fez-se importante ressaltar sua normalização, invisibilidade, justificação e deturpação. Sobre a invisibilidade, que também é um modo de negação da ideologia, é colocada a discussão já feita acima sobre o não contato com as vítimas da mesma, o que torna mais confortável para quem consome seus produtos. Assim, do mesmo modo que não se tem contato com o sofrimento animal para a produção de carne, não se tem contato com a população que diariamente passa frio, fome, dor e é exposta a condições de vida deploráveis devido à má distribuição de renda gerada pelo sistema capitalista. Nos dois exemplos a invisibilidade é mecanismo tanto para a negação da existência de tais vítimas, como também para o conforto em continuar sob domínio da ideologia sem sentir culpa pelo modo de vida deplorável daquela população que sofre as consequências de alguns hábitos e sistemas. Na justificação, destacam-se três aspectos: “natural, normal e necessário”. Isto se relaciona com a naturalização dos discursos da ideologia no pensamento popular, através de reproduções em massa, um discurso torna-se basilar para a sociedade, justificando-se como imprescindível ou o único possível. Demonstram-se as contrariedades do argumento naturalista como defesa do consumo de carne, uma vez que o homem é colocado como “especial” justamente por sua capacidade de produzir artefatos, cultura e racionalizar o mundo, afinal o ser humano não está na cadeia alimentar de modo natural, ele inventou uma outra cadeia: a cadeia produtiva. O consumo de carne pelos seres humanos passa por um longo processo de produção, o que elimina seu caráter natural, uma vez que os animais consumidos são, pelo próprio ser humano, selecionados, confinados, alimentados e vacinados de acordo com os fins desejados, transportados até os abatedouros por automóveis e por fim mortos com ferramentas inventadas pelo homem, não por seus dentes, veneno ou garras. Portanto, explicita-se a ideologia vigente, uma vez que torna-se insustentável o argumento da naturalidade, tendo em vista que o animal tornou-se objeto e produto do capitalismo.

 

Palavras chave: Psicologia Social; Ideologia; Relações humanas; Capitalismo.

 

 

Referências:

ALBUQUERQUE, Natalia de Souza. Entrevista concedida por e-mail ao site O holocausto animal. 16 nov. 2014.

GUARESCHI, Pedrinho A. Ideologia. Em: JACQUES, Maria da Graça Corrêa (org). Psicologia social contemporânea: livro texto. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 89-103.

HARGER, Julia. Veganismo 101.

JOY, Melanie. Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas – uma introdução ao carnismo. 1 ed brasileira. Cultrix, 2014.

MCCARTNEY, Paul. Looking for changes. Intérprete: Paul McCartney. Radar Records, 1993.