Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Concepções sobre deficiência e impactos nas relações de trabalho
Daniel Silva Campos, Fabrício Antônio Duarte Figueiredo, Aline Monteiro do Amaral Capelletti, Andressa Matos Minuzzo dos Santos

Última alteração: 05-07-19

Resumo


Este relato descreve a experiência vivenciada por estudantes de Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT, campus Cuiabá, a partir da disciplina de Estágio Básico III: Contextos Organizacionais e de Trabalho. Esta experiência é a segunda parte de um projeto da Secretaria de Gestão de Pessoas da UFMT, mais especificamente, da Gerência de Capacitação e Qualificação (GCQ) que visa identificar a qualidade das relações dos servidores com deficiência em seus setores e a necessidade de intervenções. A primeira etapa envolveu o levantamento sobre qualidade de vida no trabalho junto aos servidores com deficiência. Na etapa atual, objetivou-se a identificação das concepções acerca da deficiência junto a colegas e gestores de pessoas com deficiência (PcDs) na UFMT para subsidiar a terceira parte do projeto, isto é, a comparação dos resultados acerca dessas concepções com os índices obtidos em relação à qualidade de vida e identificação de possíveis necessidades de intervenções para melhorias no ambiente organizacional. Como referencial teórico, adotou-se a concepção de que existem matrizes através das quais a deficiência foi interpretada ao longo da história (Carvalho-Freitas e Marques, 2007) e que ainda têm resquícios nas representações sociais das pessoas (Jodelet, 2001) impactando positiva ou negativamente nas relações com PcDs. Nesse sentido, há também o aspecto histórico do direito do trabalho no Brasil que compreendeu que minorias necessitam de suporte legal para que a igualdade perante a lei seja garantida. Desta ideia surgem as Leis de Cotas para PcDs, visando à garantia de direitos e inclusão (Fonseca, 2006). A partir deste contexto que conta com suporte legal, mas ainda enfrenta problemas para a inclusão de PcDs no ambiente de trabalho, é necessário investigar as crenças das pessoas para entender como veem a deficiência e, assim, compreender e intervir em seus modos de agir (Ribeiro, Batista, Prado, Vieira e Carvalho, 2014). Dessa forma, como metodologia foi aplicado o Inventário de Concepções de Deficiência - ICD-ST (Carvalho-Freitas, 2007) nos servidores que trabalham com PcDs e realizada entrevista semiestruturada com os gestores dos setores para levantamento e análise de acordo com o referencial adotado. Os resultados encontrados mostraram: a) uma discordância de 69,4% dos servidores em relação a uma visão de deficiência como resultado da imposição divina. Visão que poderia produzir relações baseadas no dever de compaixão para com a PcD e dificultar a capacidade de avaliação de seu desempenho devido ao sentimento de ferir o dever da caridade. b) divergência de 69,4% à visão da deficiência como desvio de normalidade ou doença. Concepção que poderia contribuir para a segregação da PcD no local de trabalho, devido à crença de que são pessoas incapazes, e para atribuir-lhes funções especificas de pouco status e baixa possibilidade de crescimento. c) resultados de 84,4% favorável à perspectiva que encara a deficiência como um problema da sociedade, problema esse que é gerado pela falta de condições de igualdade para o exercício pleno do trabalho da PcD. Dessa forma se estimula o desenvolvimento de ações de adequações do ambiente de trabalho para a acessibilidade de todos. Na última matriz, a deficiência é analisada como um recurso a ser gerido pela organização e é observada na relação de funcionalidade com o trabalho, cuja análise está dividida em submatrizes. d) na primeira submatriz, 89,1% rejeitaram a percepção da deficiência como comprometedora do desempenho – crença de que a PcD é incapaz de competir nos mesmos padrões de performance que outros profissionais. e) a segunda submatriz verifica a percepção de benefícios na contratação de PcD com possíveis ganhos ao clima e imagem da organização. Nela encontrado resultado favorável em 61,6% das respostas. Assim, considera-se que as crenças sobre inclusão, benefício e desempenho de PcDs são positivas pois, apesar das variações de respostas, houve uma grande discordância sobre a deficiência ser advinda de uma posição divina e/ou ser um desvio da normalidade. Ademais, as entrevistas semiestruturadas indicaram uma boa integração com os colegas e reconhecimento do problema de falta de oportunidades iguais na sociedade como empecilho para a inserção do trabalhador com deficiência. Conclui-se, portanto, que, na UFMT, não há grandes problemas em relação às crenças sobre deficiência, contudo, a continuidade deste trabalho verificará a correlação entre os resultados da presente pesquisa com a anterior a fim de identificar possíveis necessidades de intervenção.

Concepções sobre Deficiência, Trabalho, Inclusão de Pessoas com Deficiência

Referências Bibliográficas

UFMT. Plano Anual de Capacitação. Cuiabá. 2018.

Carvalho-Freitas, M. N. D., & Marques, A. L. (2007). A diversidade através da história: a inserção no trabalho de pessoas com deficiência. Organizações & Sociedade, 14(41), 59-78.

Jodelet, D. (2001). Representações sociais: um domínio em expansão. As representações sociais, 17-44.

Fonseca, R. T. M. (2006). O trabalho da pessoa com deficiência e a lapidação dos direitos humanos: o direito do trabalho, uma ação afirmativa. LTr.

Ribeiro, A. P., Batista, D. F., Prado, J. M., Vieira, K. E., & Carvalho, R. L. (2014). Cenário da inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho: revisão sistemática. Revista da Universidade Vale do Rio Verde, 12(2), 268-276.

Carvalho-Freitas, M. D. (2007). A inserção de pessoas com deficiência em empresas brasileiras: Um estudo sobre as relações entre concepções de deficiência, condições de trabalho e qualidade de vida no trabalho. Belo Horizonte: Faculdade de Ciências Econômicas.