Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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CUIDADO INTEGRAL E ESCUTA DO SUJEITO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
Bruna Cristina de Souza Silva, Valéria da Costa Marques Vuolo

Última alteração: 01-07-19

Resumo


Introdução: Segundo Foucault, a clínica nasce no século XVII, com o advento da ciência moderna, quando o empirismo substitui a filosofia, onde os fatos observáveis se tornam mais importante que a explicação experiencial da doença (FOUCAULT, 1977). A medicina se apropria de um modelo classificatório da biologia e passa a nomear as doenças, o que persiste até os dias atuais (BEDRIKOW; CAMPOS, 2011). A partir disso, estamos diante de um processo empírico onde se busca descobrir a doença, estando unicamente presente no corpo. Não se tratando do descobrimento de uma verdade desconhecida ao profissional, mas de uma já conhecida, já adquirida pelos manuais. Dessa forma, desejando conhecer a doença, deve-se anular as características singulares do sujeito e observar o curso da doença no corpo, assim, as leis imutáveis que determina a patologia são descobertas (FOUCAULT, 1977), pois, a doença, que é uma ocorrência no corpo, conceitualmente pode ser separada da pessoa do doente (MCWHINNEY, 2010). Diante do exposto, este relato de experiência tem como objetivo demonstra as possibilidades de um cuidado integral por parte da rede de atenção à saúde do Estado, que ultrapasse o olhar meramente biológico e atue partindo da visão de que o sujeito é biopsicossocial e demanda uma escuta clínica pautada no cuidado integral. Desenvolvimento: Pautando-se nessa problemática, a equipe do projeto Doença Falciforme: a dor que vem do sangue, composta por alunos dos cursos de psicologia e biomedicina da Universidade de Cuiabá (UNIC), juntamente com a equipe multidisciplinar do ambulatório do MT-Hemocentro, desenvolveram ações ao longo do primeiro semestre do ano de 2019 com sujeitos hemofílicos e falcêmicos, buscando romper com o padrão de escuta que os mesmo sempre tiveram, a escuta de seus sintomas, de suas doenças, possibilitando que o sujeito por trás dessas doenças emergissem, pautando-nos no fazer da Clínica Ampliada como diretriz de atuação dos profissionais da saúde e consiste na articulação e diálogo de diferentes saberes para compreensão dos processos de saúde e adoecimento e na necessidade de inclusão destes como participantes das condutas em saúde, inclusive da elaboração do Projeto Terapêutico Singular (SUNDFELD, 2010). Foi realizada uma ação no Dia Mundial da Hemofilia, 17 de abril, no Sesi Escola com alunos do ensino fundamental e o corpo docente da instituição onde foi trabalhado a conscientização sobre a doença, através de rodas de conversa e atividades lúdicas. A peculiaridade nesta ação está no fato de que tal movimento foi a pedido de uma criança de 5 anos, hemofílica, o qual, diante de suas necessidades subjetivas de ser ouvida, olhada e compreendida, buscou em nós um lugar que possibilitasse sua fala. Neste evento assuntos como: o hemofílico também brinca, também pode ter amigos, também é gente como a gente, foi tomado em pauta, pois, o doente não é uma doença e sim um sujeito que deve ser enxergado para além de seus sintomas e enfermidades. Outra ação se trata de uma Roda de Conversa com sujeitos portadores de Doenças Falciforme, que teve por objetivo dar voz aos mesmos, de modo a possibilitar trocas, viabilizando um momento onde suas angústias pudessem ser ouvidas e seus feitos grandioso em viver diariamente com a doença pudessem ser validados. Análise: É necessário o reconhecimento de que a clínica médica tradicional, essencialmente empírica, mostrou-se, e mostra-se, eficaz no que tange os desafios das doenças de ordem biológica (BEDRIKOW; CAMPOS, 2011), e que é a isso que os mesmos se propõem, este é seu lugar de atuação. O que aqui cabe criticamente pensar é o ignorar constante daquilo que foge aos diagnósticos anatômicos, funcionais e etiológicos, enterrando o sofrimento da ordem subjetiva que, muitas vezes, servem de base para o nascimento da doença no corpo. E aqui surge a demanda da atuação da psicologia com sua escuta do subjetivo, do escondido, do ignorado, daquilo que, no seio da contemporaneidade pragmática é recorrentemente anulado. Conclusão: Acredita-se que, com este estudo, brechas cada vez maiores possam ser abertas no tratamento de sujeitos com doenças crônicas não transmissíveis, alertando para necessidade de validação do subjetivo, do cuidado pautado em uma clínica ampliada e integral, demonstrando que o sujeito com uma doença continua sendo sujeito e que é somente através desse (re)conhecimento e dessa referência que podemos efetuar o cuidado em saúde.

Palavras-chave: Clínica ampliada; Clínica da subjetividade.

 

BIBLIOGRAFIA

BEDRIKOW, R. Dor crônica em mulheres: uma reflexão sobre a clínica. [dissertação]. Campinas: Universidade Estadual de Campinas; 2008. Disponível em:< http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/309412>.

BEDRIKOW, Rubens; CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. Clínica: a arte de equilibrar a doença e o sujeito. Rev Assoc Med Bras 2011; 57(6):610-613. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42302011000600003>.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 1977. Prefácio; p. XVII. Disponível em:< https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4325478/mod_resource/content/1/FOUCAULT_M_O_Nascimento_da_Cl_237_nica.pdf>.

MCWHINNEY, I. R. A evolução do método clínico. In: Stewart M, Brown JB, Weston WW, Mc Whinney IA, Mc William CL, Freeman TR. Medicina centrada na pessoa: transformando o método clínico. 2a ed. Porto Alegre: Artmed; 2010. p. 35-48. Disponível em:< https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/imagem/3934.pdf>.

SUNDFELD, Ana Cristina. Clínica ampliada na atenção básica e processos de subjetivação: relato de uma experiência. Rio de Janeiro: Physis,vol.20 no.4. 2010. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-73312010000400002&script=sci_abstract&tlng=pt>.